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Pequim 2008

Terça, 11 de dezembro de 2007, 11h09

Da Grande Muralha aos Jogos Olímpicos

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Rafael Poch

Pequim está na reta final para os Jogos Olímpicos. Suas grandes obras públicas se dirigem à arrancada final. Linhas de metrô, grandes e suntuosos edifícios públicos, bairros inteiros transformados. Tudo foi erguido para estar preparado em agosto de 2008, quando a expectativa é de que 5,5 milhões de chineses e estrangeiros visitem a cidade.

Toda Olimpíada propicia, em maior ou menor grau, um plano de desenvolvimento às suas cidades-sede, mas nada se compara ao que vem sendo empreendido em Pequim para 2008, nem em termos de vigor nem do número de edifícios e construções novas.

Os taxistas estão estudando inglês e a prefeitura organiza campanhas cívicas para melhorar o comportamento do povo, reprimindo o salve-se quem puder feroz das filas de transporte e o hábito de cuspir na rua, e promovendo a limpeza dos meios de transporte.

O esporte era um luxo neste país que foi tão pobre até recentemente, e no qual dois terços da população continuam bastante distantes da sociedade de consumo. Por isso, mal existiam instalações esportivas, e as existentes foram reconstruídas, do zero.

Para o verão do ano que vem, a cidade de 15,5 milhões de habitantes terá passado por uma grande transformação, a culminação do projeto de construção mais ambicioso do país desde a construção da Grande Muralha.

E em lugar algum da cidade se vê essa mudança como na área conhecida como Zona Verde Olímpica, a imensa área ajardinada na região norte de Pequim que abrigará a maior parte dos eventos olímpicos, situada em eixo simétrico ao da Cidade Proibida.

Hoje a Zona Olímpica é um espaço gigantesco, flanqueado pelos dois cinturões de circulação expressa da cidade. Das vias expressas se pode ver guindastes, tapumes e movimento, mas sem perceber o que acontece do lado de dentro, e tampouco as imensas dimensões da área. Das 31 instalações olímpicas que estão sendo construídas em Pequim, 10, incluindo as mais espetaculares, ficam ali.

A Zona Olímpica abriga os extraordinários edifícios e instalações do Estádio Nacional (o ponto central dos Jogos ), o Centro Aquático Nacional (um cubo de água) e o Centro de Comunicações Pequim Digital, em estilo futurista. Com essas construções e outras, em partes diferentes da cidade, como a nova sede da TV estatal chinesa (projetada pelo arquiteto holandês Rem Kolhaas) ou o Grande Teatro Nacional (do francês Paul Andreu), Pequim se tornou em um dos centros da arquitetura contemporânea.

Outras instalações da Zona Olímpica, menos espetaculares mas igualmente grandiosas e modernas, são o campo de hóquei, o centro de arco e flecha, o centro de tênis, a sala de tiro e esgrima (no interior do colossal Centro Nacional de Convenções), o Estádio Nacional coberto, o ginásio olímpico e o centro de natação Ying Tung.

A oito meses dos Jogos, o lugar foi aberto à imprensa e mostra imensa atividade. Algumas delegações vieram das províncias e posam para as fotos ao lado das novas edificações que se espalham pela Zona Olímpica. Dezenas de milhares de trabalhadores se revezam nas obras, entre cartazes que conclamam à qualidade no trabalho.

São testes e exames de comprovação de qualidade , explicam os trabalhadores, que como quase todos os operários da construção na China são migrantes. Mas não são os migrantes comuns do país.

Os contratados para o projeto olímpico passaram por certa seleção. Todos têm nível médio de educação, segundo a imprensa, e "estão recebendo pontualmente", o que representa uma indicação de até que ponto os migrantes que trabalham na construção chinesa estão sujeitos a calotes dos empreiteiros e patrões. Excetuado o Estádio Nacional, todas as obras estarão concluídas até o final do ano.

Meng Susheng, eletricista de Hebei, a província em que Pequim se localiza, diz que "embora no final seja tudo questão de trabalho e salário, estamos todos orgulhosos de trabalhar nessas instalações".

Pergunto se a vida não era melhor em sua aldeia. "Com certeza ninguém sai da aldeia por gosto", responde. Pergunto se ele sofreu ao deixar o lar e a família. "A questão é simples", disse. "Minha família tem seis pessoas e 4,2 mus (0,3 hectare) de terra, e todos juntos ganhamos entre seis mil e sete mil yuan (600 a 700 euros) por ano, enquanto aqui ganho 1,8 mil yuan por mês )".

Huang Quqing, da província de Hubei, trabalha como pedreiro na construção do enorme hotel da Zona Olímpica.

"Trabalho há sete anos para a mesma empresa, e há 20 no setor de construção", diz. Sua família continua em Hubei. "Eu os vejo uma vez por ano, e às vezes nem isso". Pergunto por quanto tempo ele conseguirá suportar essa vida. "Até me aposentar. Sou membro do partido", diz, como se isso implicasse que ele deve ser mais resistente a sacrifícios.

O trabalho é causa de orgulho? "Com certeza - você viu o que estamos construindo? Será o maior hotel do mundo, com 260 mil metros quadrados e cinco estrelas", diz. Às suas costas cintilam as luzes do Pequim Digital, o centro de comunicações que está quase pronto e do qual as emissoras de TV transmitirão suas imagens. O edifício é formado por quatro retângulos conectados, com linhas de luz que descem fachada abaixo, algo original e atraente, e que parece fascinar os operários.

Nos últimos meses, a China reforçou o controle de vistos e de identidade dos moradores estrangeiros. Está se preparando, dessa forma, para restringir a entrada no país de ativistas dos direitos humanos e membros de organizações não governamentais dispostos a utilizar os Jogos para denunciar a China como um novo "império do mal".

As autoridades anunciaram que permitirão à imprensa liberdade ilimitada. Os 20 mil jornalistas esperados para os Jogos não sofrerão a censura de Internet que a polícia chinesa tenta praticar aqui com êxito bastante discutível, e foram criadas algumas barreiras formais aos profissionais de mídia, mas ao mesmo tempo foi anunciado que não serão permitidas campanhas em favor dos exilados tibetanos ou outras causas populares no Ocidente. Como o dilema será resolvido é algo que teremos de ver para saber.

Outro grande tema é a contaminação de Pequim. Os Jogos deveriam acontecer em setembro, mês muito agradável em termos de clima, na cidade, mas o Comitê Olímpico Internacional (COI) decretou que aconteçam em agosto devido ao fiasco econômico registrado em Sydney.

"Em agosto, a audiência de televisão é muito maior", explica um funcionário do Departamento Municipal de Meio Ambiente, mas em agosto o clima é muito ruim em Pequim: muita chuva, céus cinzentos, umidade elevada, um ar opressivo.

Em agosto, a mistura de umidade e contaminação prejudica qualquer espetáculo, mas o governo está disposto a superar o problema. Em Pequim, a poluição mistura particulados em suspensão e gases do efeito-estufa. A situação piora à noite, porque as maiores emissões industriais acontecem nesse período, que também vê o tráfego de caminhões liberado em toda a cidade.

Instalações esportivas novas a perder de vista:
1. "O ninho". Estádio Nacional. Principal centro da Zona Olímpica e a construção mais importante para os Jogos. Cenário das cerimônias de abertura e encerramento e das competições de atletismo, com 91 mil lugares e custo de 3,8 bilhões de euros. Projeto dos suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron.

2. O "cubo de água". Centro Aquático Nacional. Situado diante do Estádio Nacional, com capacidade para 17 mil espectadores. O envoltório formado por três mil almofadas translúcidas de plástico reciclável cria um efeito líquido. Criado pelo escritório australiano PTW e pelo escritório chinês SCEC, sediará as competições de natação, salto e nado sincronizado.

3. Estádio Nacional Coberto. O conjunto poliesportivo no qual serão disputadas as competições de ginástica artística e handebol, com 18 mil lugares.

4. Ginásio da Universidade de Agricultura. Sediará as competições de luta, com 8,5 mil lugares.

5. Ginásio de judô e taekowndo, com oito mil lugares, no campus da Universidade de Ciência e Tecnologia.

Pequim Digital. O centro de comunicações dos Jogos. Edifício retangular de quatro blocos, cujos materiais (mistura de cimento cristal e alumínio) e linhas de luz externas criam um efeito surpreendente, atraente e muito moderno. Projeto do arquiteto Zhu Pei, do Estúdio Urbanus, em Shenzhen.

Estádio do Centro Esportivo Olímpico. Para 40 mil pessoas, sediará o futebol e abriga uma pista de corrida de oito raias e 400 metros na qual será disputada o pentatlo pedestre e eqüestre.

Vila Olímpica. Dividida em zona internacional e zona residencial, que abrigará todos os atletas e os funcionários dos comitês olímpicos nacionais.

Arco e flecha. Com três campos, um para a fase classificatória e dois para as finais.

Vôlei de praia: estádio para 12 mil espectadores, com duas áreas de aquecimento e seis quadras de treinamento (Parque Chaoyang).

Represa das Tumbas Ming. A 32 quilômetros de Pequim, sede das competições de triatlo.

Velódromo Laoshan. Sua pista oval de 250 metros será cenário de competições de ciclismo, com lugar para seis mil espectadores (distrito de Shijingshan, a oeste de Pequim).

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME


La Vanguardia