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Sexta, 25 de julho de 2008, 18h04

Paraíso das falsificações respeita produtos olímpicos

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Australianas Emma Murphy, Elizabeth Anderson, Amanda Douglas e Brooke Lees foram às compras em Pequim
Australianas Emma Murphy, Elizabeth Anderson, Amanda Douglas e Brooke Lees foram às compras em Pequim
Liana Pithan/Terra

Liana Pithan
Direto de Pequim

O Mercado das Sedas, paraíso das falsificações de Pequim, vende apenas souvenirs originais dos Jogos Olímpicos, seguindo os preços tabelados. O local, que se notabiliza pelas imitações - com níveis de qualidade que variam do grotesco ao excelente -, oferece, por exemplo, a caixa com cinco miniaturas de pelúcia dos simpáticos mascotes da Olimpíada, os Fuwas, por 98 yuans (em torno de R$ 25,50), mesmo valor encontrado nos locais de competições e shoppings tradicionais.

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O destemor dos falsificadores não resistiu à rigorosa fiscalização em defesa dos direitos sobre os produtos oficiais, criada a partir de um acordo entre o governo chinês e o Comitê Olímpico. No lançamento da campanha, em maio, foi criado um telefone gratuito para receber denúncias sobre produtos falsificados e o governo promete pagar recompensas de até 100 mil yuans (aproximadamente R$ 25,8 mil) para cidadãos que denunciem o uso ilegal da imagem dos jogos em objetos.

Mesmo às vésperas dos Jogos, porém, não são os produtos ligados ao evento que levam turistas ao Mercado das Sedas. Quatro estudantes australianas e uma aposentada holandesa enchiam sacolas com roupas, bolsas e calçados nesta sexta-feira. Passando férias na cidade, desde o dia 19, Emma Murphy e as amigas Elizabeth Anderson, Amanda Douglas e Brooke Lees estavam pela quarta vez fazendo compras no local. Segundo Amanda, o objetivo é comprar artigos de grifes famosas que custariam muito mais em outras lojas.

Emma disse que comprou "apenas" quatro bolsas e dois pares de sapatos, mas que uma amiga, que não as acompanhou na última visita, tinha levado 12 bolsas. "Comprei Dolce e Gabana, Marc Jacobs, Gucci... o zíper interno de uma delas quebrou, mas tudo bem, eu compro outra", afirmou Emma. Ela não ignora que se trata de falsificações, mas acha que a qualidade é muito boa, e o preço, baixo. Segundo a estudante, o exaustivo processo de pechincha com os vendedores é "a melhor parte". "É tudo tão divertido. E tão barato. Acho que vamos voltar aqui mais vezes", afirmou Brooke.

A holandesa Frieda Roojen também não estava interessada nos produtos oficiais dos Jogos, mas em roupas. "Comprei uma pashimina rosa linda e roupas íntimas de seda. Quero um conjunto de saia e blusa da mesma cor." Em sua quarta viagem a Pequim, ela visitou a cidade pela primeira vez em 1988, quando o Mercado das Sedas era a céu aberto - a Rua das Sedas. "Também era bonito, vivo. Mas gosto mais agora", disse. Frieda, que em todas as visitas à cidade fez compras no local, diz que a regra da pechincha é a mesma de antigamente. "Nunca aceite o preço que eles pedem. Diga sempre que acha caro", aconselhou.

Após 20 anos de funcionamento, em janeiro de 2006, o mercado de rua foi fechado pelo governo municipal sob a alegação de problemas de segurança e risco de incêndio. Dali a dois meses, as bancas foram instaladas em um edifício, onde a regulamentação das mercadorias e o combate à pirataria seriam supostamente mais efetivos. Os sete andares do prédio - terceiro ponto turístico mais visitado da cidade, segundo o jornal China Daily - tem cerca de 1,7 mil bancas e 3 mil vendedores. Recebe 20 mil visitantes em dias de semana e de 50 a 60 mil nos sábados e domingos.

A transformação, porém, não eliminou a venda de falsificações - agora mais dissimuladas - nem alterou o método de conquistar clientes: o corpo-a-corpo, literalmente. Os vendedores tocam nos braços dos visitantes ou puxam suas roupas para chamar-lhes a atenção. Diante da competição com lojistas vizinhos, a jovem Gao Mo não vacilou ao segurar firme, com as duas mãos, no braço de uma visitante. Bastou um instante para a consumidora ser levada para dentro da banca e, logo depois, para o subsolo do prédio, onde as falsificações das grifes mais famosas são negociadas, devido ao medo da repressão policial.

Depois de escolher o modelo desejado em um catálogo original das marcas, o cliente recebe o artigo para avaliação. Fechar a venda é o capítulo mais longo e requer paciência e alguma habilidade dramática para obter o melhor preço. Quando questionado sobre preços, o vendedor digita em uma calculadora um valor excessivamente alto, que pode chegar até cinco vezes o que espera receber. O comprador deve parecer insultado e digitar um número muito inferior - menos do que pensa que o produto vale. A encenação é esperada pelos lojistas e deve prosseguir por mais tempo, sempre com contrapropostas dos dois lados, próximas ao valor inicial oferecido por cada um.

Não raro, o cliente finge que desistiu da compra e ameaça partir. Nesse momento, terá o braço novamente puxado para receber uma oferta final. Concluída a compra, o artigo será entregue enrolado em sacolas pretas - de plástico similar ao usado em sacos de lixo no Brasil - e o cliente será orientado a esconder a mercadoria. A despedida e os últimos sorrisos serão na escada do subsolo. Ao subir para o andar das lojas, o vendedor segue passos à frente sem olhar para trás, como se ignorasse o conteúdo da sacola e o seu dono.


Redação Terra