Atualizada às 13h43
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| Técnico da Seleção fala com exclusividade ao Terra |
| Reprodução |
Bernardo Ramos
Direto de Cingapura
Com duas derrotas e um empate em casa contra a Argentina nos últimos três jogos, o técnico Dunga ouviu vaias e gritos de "burro" no Mineirão. No entanto, em entrevista exclusiva ao Terra em Cingapura, onde a equipe treina para tentar o ouro inédito, o treinador diz não se importar com as críticas.
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"Acho que faz parte da situação. Outros treinadores já passaram (por isso)... a gente tinha uma forma de trabalhar e a gente já sabia das dificuldades", diz o treinador. Sobre a Olimpíada, competição que já custou o cargo do técnico Vanderlei Luxemburgo após o fracasso em 2000, em Sydney, Dunga admite que sofrerá ainda mais pressão.
"A pressão vai ser sempre grande, e em Olimpíadas, que é a única que falta, é mais... Mas acho que tem de se ter consciência daquilo que está se fazendo", acrescenta o treinador, medalha de prata como jogador em Los Angeles 1984.
Terra - Na sua opinião, a experiência é importante em uma competição como a Olimpíada. Dentre os jogadores, Ronaldinho é o mais experiente. Qual será o papel dele na Seleção?
Dunga - Acho que da conscientização do que ele representa dentro da Seleção. No momento mais difícil do jogo ele pode transmitir aquilo que nós treinamos para os jogadores. No momento mais complicado, ele pode assentar a bola ali no chão, calma, em um momento de tranqüilidade no momento da gente tocar a bola... passar segurança até pela própria segurança desse jogador que você falou. O Ronaldinho já jogou Copa do Mundo... acho que os jogadores devem sentir dentro de campo onde eles possam se escorar, onde eles possam ter uma palavra, possam ter um auxílio técnico para ajustar a partida.
Terra - Isso vale no vestiário também?
Dunga - Vale no vestiário também, no dia-a-dia... para que os jogadores mais novos possam chegar para conversar. O Ronaldinho e o Thiago (Thiago Silva, outro jogador com mais de 23 anos de idade convocado por Dunga), nos clubes por onde passaram, já tiveram essas situações. Então tem sempre um conforto, uma palavra amiga, uma saída para as dificuldades que estão acontecendo... isso dá uma segurança. Ter jogadores desse porte junto com o grupo é importante.
Terra - Você vem de duas derrotas, para a Venezuela e Paraguai, e um empate em casa com a Argentina. Aí surgiram críticas, você foi chamado de "burro"... isso te machucou? Como foi ver a torcida vaiando e ofendendo?
Dunga - Não, acho que faz parte da situação. Outros treinadores já passaram (por isso)... a gente tinha uma forma de trabalhar e a gente já sabia das dificuldades. Tínhamos jogadores com 25 dias de férias quando fomos jogar com a Venezuela, a gente colocou a equipe considerada titular contra o Canadá, mas quatro ou cinco jogadores sentiram e a gente não pode repetir a equipe. Só ficaram um ou dois jogadores. Dificulta o fuso horário... mas ninguém quer saber, quer saber do resultado final. Mas, para nós da comissão técnica, estava na programação a dificuldade que a gente ia encontrar. Talvez a gente não esperava os dois resultados negativos, mas era uma situação que estava no planejamento que a gente ia enfrentar. Contra a Argentina, eles tendo toda a equipe completa, com Messi e Riquelme, o empate não é totalmente ruim. Lógico que no Brasil a gente quer ganhar sempre, né? Mas, de três confrontos que a gente teve com a Argentina, vencemos dois e empatamos um. Então não é totalmente desconsiderável. Justamente as duas equipes que têm mais jogadores na Europa, que são Brasil e Argentina, foram os que menos pontos fizeram. A Argentina empatou no último minuto em casa e o Brasil teve uma derrota e um empate. Então essa dificuldade, tanto para a gente quanto para a Argentina, já se esperava.
Terra - Se houver sucesso na Olimpíada, esses jogadores podem acelerar o processo de renovação para a Copa do Mundo de 2010?
Dunga - Acho que em toda a competição, sempre o jogador ganha pontos se comportando bem. Houve uma geração que não foi para as Olimpíadas e perdeu um espaço dentro da própria Seleção Brasileira. Perdeu tempo no futebol. Agora essa geração está com a oportunidade de jogar essas Olimpíadas e a gente tem uma Copa do Mundo daqui a dois anos. Então não é uma distância tão longa. Então quem vem bem nas Olimpíadas, está se candidatando a um lugar na Seleção principal. Assim como aqueles que estão na Seleção principal e estão indo bem, já estão garantindo um lugar. Faltam dois anos, é muito rápido.
Terra - Você mesmo disse que tem que ser primeiro, não existe outra opção. O que acontece se não for? Como fica?
Dunga - A gente tem de ter consciência do trabalho que a gente vai realizar, de tudo que está se fazendo. Agora as outras equipes (de outros esportes) estão há quatro anos trabalhando. No Brasil, a gente começou a trabalhar há cinco dias. São diferentes os outros esportes. Eles se preparam quatro, cinco anos para as Olimpíadas. O futebol no Brasil, pelo calendário, pela dificuldade, a gente tem de preparar uma equipe em quinze dias. E a cobrança é maior. No futebol sempre vai ser assim, não vai ser diferente no Brasil. Todo mundo que está aqui tem de estar preparado para isso, para inúmeras dificuldades. E as pessoas querem o melhor, e nós brasileiros queremos, é sempre assim.
Terra - Você passou por um momento de cobrança extrema quando era jogador. A cobrança neste momento, após os últimos resultados e antes da Olimpíada, é maior?
Dunga - Sem dúvida. Agora você é responsável por todo um trabalho e aí surgem cobranças, dificuldades, e as pessoas falam, opinam... o cara está lá no Brasil, não está vendo o trabalho ser realizado. Mas tem de dar sua opinião, tem de dizer... daí se envolvem pessoas de todos os setores, pessoas que já estiveram aqui e sabem das dificuldades e do momento. Mas a gente tem de estar preparado para enfrentar tudo isso, com consciência no nosso trabalho e fazer aquilo que a gente está fazendo. Não importa o que se diga, o que se faça. O importante é o grupo estar sempre focado, determinado ao seu objetivo.
Terra - As críticas de quem está no Brasil parecem te irritar, não é?
Dunga - Não, porque com os outros que estiveram aqui também já aconteceu isso. O que eu passo para os meus jogadores é que a gente tem de aproveitar o momento em que está aqui na Seleção. Depois que a gente sair daqui, não adiante se falar como é que tem de se fazer, o que tem de se dizer, como tem de jogar, de que forma tem de fazer. Tem de aproveitar o tempo em que estiver aqui. Aqui é que a gente tem de demonstrar tudo, nossas qualidades, nossa oportunidade. Depois não vale mais nada, não conta mais nada.
Terra - Olimpíada tem um histórico complicado para a Seleção Brasileira, você sabe disso. Em 2000 caiu até técnico. Você sente um peso maior, uma pressão maior?
Dunga - O desafio é grande sempre na Seleção. É maior aqui porque a gente tem 15 dias para preparar uma equipe. A Seleção principal tem quatro anos para treinar, para ver os jogadores, para mudar o esquema. A pressão vai ser sempre grande, e em Olimpíadas, que é a única que falta, é mais... Mas acho que tem de se ter consciência daquilo que está se fazendo.
Redação Terra