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Domingo, 27 de julho de 2008, 08h13 Atualizada às 08h45

Filho do "Rei Leão", Bruninho diz ter superado preconceito

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Renata Machado

Vibrante, perfeccionista e com alma de líder, trabalhada em seu clube, o Florianópolis, onde é capitão. Fora da quadra, porém, Bruno mostra-se um garoto meigo, doce e muito calmo, bem diferente da imagem criada em torno de seu pai, o técnico Bernardinho, famoso pelo estilo durão e pelo nervosismo no comando dos jogos da Seleção Brasileira masculina de vôlei.

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O estilo tranqüilo foi herdado da mãe, a ex-jogadora de vôlei Vera Mossa. Seguro, o levantador reserva do Brasil disse, em entrevista ao JB, que já aprendeu a lidar com a pressão e o preconceito por ser filho de quem é.

O jogador, que no último sábado entrou diversas vezes no lugar de Marcelinho e fez até ponto de cortada, contou que precisa provar seu valor constantemente e até divulgou seu apelido: Simba, o filho do Rei Leão.

JB: Como foi entrar na Seleção por causa do corte do Ricardinho?
Bruninho: Não era a forma que eu gostaria de entrar, foi um período de turbulência, de confusão armada, mas as portas se abrem não da maneira que você quer, e você entra ou não.

JB: Você sofreu com o que foi falado na época?
Falaram que o Ricardinho foi cortado porque ele (Bernardinho) queria dar o ouro no Pan para o filho. Mas o Ricardinho era o melhor do mundo. Por que não cortaria o Marcelinho, que era o reserva? Chateia as pessoas ficarem falando certas coisas, mas essas acusações levianas não me incomodam mais.

JB: Aprendeu a lidar com elas?
Bruninho: Esse preconceito me motiva ainda mais para mostrar que estou aqui pelo meu trabalho. Depois da Olimpíada, para mim, a pressão seria muito menor se ele (Bernardinho) saísse da Seleção, porque é ele que está me convocando. De nada adiantou eu ter sido campeão da Superliga, eleito o melhor levantador... Vou continuar ralando e trabalhando muito. Mas quem está perto de mim sabe que estou aqui pelo meu trabalho e é isso que me interessa.

JB: É difícil carregar o sobrenome dos seus pais?
Bruninho: Sempre é pesado. No início era um misto de comparação e desconfiança. "Será que ele vai ser bom jogador? Ah, vai jogar só porque o pai é técnico". Essa pressão é complicada. Tive sempre de mostrar meu valor para provar porque estou aqui.

JB: Incomoda ser chamado de "o filho do chefe"?
Bruninho: Não, e os jogadores até mexem comigo. Quando fui convocado para a Seleção pela primeira vez, em 2006, eles até me deram o apelido de Simba, o filho do Rei Leão (risos). Mas é tudo na brincadeira. Eles até abusam. "Você que é filho dele, vai lá perguntar se vai ter treino".

JB: Como é essa relação de pai/filho e técnico/jogador?
Bruninho: Separamos a relação de pai e filho dentro de quadra, mas ele me cobra muito mais por me conhecer, me enche o saco. Primeiro eu ficava indignado, mas agora não ligo mais. O que é importante eu absorvo, mas se é besteira entra por um ouvido e sai pelo outro. E ele sabe disso (risos). Mas é muito bom trabalhar com ele, é o melhor técnico do mundo.

JB: Em que você parece com seu pai e o que puxou da mãe?
Bruninho: Dentro da quadra sou perfeccionista, me cobro muito, como o meu pai. Ele também tem uma liderança natural e essa característica vem aumentando em mim, que sou capitão no meu time. Não sei se tenho capacidade, mas me colocaram (risos). E o estilo durão que falam do meu pai não tem nada a ver. Ele é tranqüilo, só é hiperativo. Já fora da quadra sou zen, mais calmo e paciente, como a minha mãe.

JB: Sua trajetória foi rápida. Em 2006 você disse que não estava preocupado com a Seleção e em 2007 já foi ao Pan...
Bruninho: Tudo na minha carreira aconteceu meio rápido. Logo que comecei, na temporada 2005/2006 da Superliga, fui campeão no meu primeiro ano como titular, aos 18 anos, eleito o melhor levantador. Em seguida fui convocado para a Seleção e na Superliga fui eleito o melhor de novo. E na última fui campeão e o melhor. Chegar na Seleção assim é um sonho. Não imaginava que pudesse acontecer tão rápido.

JB: Como avalia sua evolução?
Bruninho: Em 2006 eu estava engatinhando. No primeiro momento me senti acanhado. Estava jogando com meus ídolos e ficava nervoso, não me soltava. Fui me adaptando e amadurecendo o lance de ser da Seleção. O que aconteceu com o Ricardinho foi uma maneira de eu assumir mais rápido a responsabilidade de estar na Seleção, que está há tanto tempo vencendo. Quem entra tem de matar um leão por dia. Tive de entrar nesse esquema na marra. E eu me cobro muito. Tenho tudo para conquistar ainda e me espelho neles, que sempre me apoiaram. Estou começando e tenho de comer o chão e a bola para mostrar que mereço estar aqui.

JB: Imaginava que Pequim seria sua primeira Olimpíada?
Bruninho: Nem imaginava. Em 2004 eu estava vendo pela TV, nervoso, torcendo muito. Agora vou estar lá, na minha primeira Olimpíada, com 22 anos. Não sei se caiu a ficha, mas não estou muito ansioso, com grandes expectativas. Vivo dia após dia. Acho que só vou realizar que estou em uma Olimpíada quando chegar lá, com a responsabilidade de defender o ouro. Às vezes imagino como será o ponto final, a euforia, para que lado vou correr. Mas tem muito chão até lá. Penso e já coloco os pés no chão.


Jornal do Brasil