Atualizada às 17h14
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| Dunga diz não temer medo de demissão após Olimpíada |
| AP |
Bernardo RamosDireto de Xangai
Um homem sentiu uma derrota e se diz ferido. Menos de dois dias após o tropeço para a Argentina, por 3 a 0, e antes do jogo que vai definir o bronze, contra a Bélgica, o técnico Dunga concedeu uma entrevista exclusiva ao Terra. A pergunta inevitável é sobre uma possível demissão. Dunga se diz tranqüilo em relação ao presente e ao futuro. "Não tenho medo de nada no futebol, não me apego a essas coisas. Outras coisas vão acontecer na minha vida, seja como técnico ou não", afirma.
Embora fale em vitória contra a Bélgica, Dunga admite ainda sentir os efeitos da derrota de terça-feira. "Estou sentindo e ferido sim, como todo mundo, como todo jogador", diz o treinador, cuja derrota suscitou declarações públicas até do presidente da Câmara dos Deputados. Arlindo Chinaglia (PT-SP) falou textualmente o seguinte: "O Dunga já deveria ter caído". O técnico diz entender a declaração, embora admita que não se deve aceitar tão facilmente a colocação. "Quando se perde, é mais do que o normal, porque falam o que as pessoas querem ouvir. Tem de ter a frieza de... não digo aceitar, mas continuar o trabalho", acrescenta.
O retrospecto de Dunga na Seleção, campeão da Copa América de 2007, é o terceiro melhor entre os técnicos que dirigiram a equipe desde 1989 (26 vitórias, 7 empates e 6 derrotas nas Seleções Olímpica e principal), atrás apenas de Luiz Felipe Scolari e Zagallo. Depois de assumir pela primeira vez como treinador logo a camisa pentacapeã mundial, calou muitos com o título sul-americano.
Embora nunca tenha sido uma unanimidade, o desempenho do treinador foi questionado com mais contundência após a derrota por 2 a 0 para a Venezuela, em junho, no amistoso disputado em Boston.
Dias depois, a equipe perdeu para o Paraguai por 2 a 0. No entanto, as vaias e ofensas vieram com força em um Mineirão lotado, em 18 de junho, quando o Brasil jogou mal e ficou no 0 a 0 com a Argentina. Das arquibancadas, ouviram-se gritos de "burro" e "jumento". O resultado deixou o Brasil em uma modesta quinta colocação nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010, o que representaria a embaraçosa situação de enfrentar uma repescagem por uma vaga no Mundial caso as seletivas acabassem agora.
Agora, Dunga vive seu pior momento como técnico da Seleção após os 3 a 0 sofridos para a Argentina na semifinal da Olimpíada de Pequim. O resultado enterrou as chances de medalha de ouro, além de aumentar de forma intensa a pressão sobre o treinador.
Boatos de demissão surgiram no Brasil e na China. "Já caiu", diziam jornalistas nos corredores do Estádio dos Trabalhadores. No entanto, Dunga garante ter ouvido do presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Ricardo Teixeira, apenas boas palavras. "O presidente passou tranqüilidade para a gente continuar o nosso trabalho", garante o treinador.
Terra - Como você está diante desta situação?
Dunga - Bem e feliz não estou... era possível, a gente tinha esse sonho grande, que era de vir à Olimpíada. Faltava essa medalha ao Brasil e a gente trabalhou para isso. Mas o futebol está sujeito a ver acontecer alguns imprevistos. Temos um grupo ótimo, trabalhando da melhor maneira possível. Agora tem de suportar as críticas, é normal no futebol. Se quer sempre que o Brasil ganhe em todas as situações e nem sempre é possível.
Terra - Você teve alguma palavra oficial da CBF? Você falou com o presidente Ricardo Teixeira depois da derrota para a Argentina?
Dunga - Com o presidente a gente fala sempre, todos os dias. Conversa, liga... acho que tem de ter tranqüilidade neste momento. Do que foi feito, saber do que tínhamos à disposição e que cada um deu o melhor neste momento. Não é julgar um trabalho por uma derrota ou não. É lógico que é uma derrota importante, mas é por isso que vai se colocar tudo a perder.
Terra - O que o presidente falou com você exatamente após a derrota?
Dunga - O presidente passou tranqüilidade para a gente continuar o nosso trabalho. Sabe o que está se fazendo, o que está se propondo. Ele também tem informação do que se faz, então ele deu a tranqüilidade para a gente continuar trabalhando.
Terra - Após o jogo, você ouviu de alguém alguma crítica ou houve silêncio? Como foi a partir do momento em que acabou o jogo até agora?
Dunga - Acho que o melhor que se faz após a derrota é ficar quieto. Do que foi feito, de que forma, de que maneira. Jogamos com uma equipe de qualidade também. Tínhamos jogado três vezes contra essa equipe... quatro vezes, aliás. Ganhamos duas, empatamos um e perdemos outra. Mas acho que é o futebol. Tem essa enorme cobrança. Quando a gente ganhou na Copa América não teve tanta repercussão, mas agora tem porque é a Argentina, não é. Mas tem de saber trabalhar, quem está no futebol sabe que isso vai acontecer e tem de estar firme.
Terra - Como foi o feedback, além do presidente você falou com alguma outra pessoa da CBF?
Dunga - Não, com a CBF eu tenho contato diretamente e exclusivamente com o presidente. É na vitória, é na derrota... é direto com o presidente.
Terra - O Ronaldinho sofreu muito após a derrota. Você teve uma conversa a sós com ele ou com algum outro jogador?
Dunga - Não com o Ronaldinho ou com algum jogador. A gente tem conversado com todo o grupo. É um grupo que está junto a trinta dias, trabalhando. Todos queriam, todos tinham essa vontade, esse desejo. Então o grupo sente, sem dúvida nenhuma. Mas agora tem de levantar, já que a gente tem o próximo jogo.
Terra - Como você está pessoalmente, como está o Carlos Caetano Blerdorn Verri (nome de Dunga)?
Dunga - Estou sentindo e ferido sim, como todo mundo, como todo jogador... é lógico que eu tenho a maior responsabilidade, é normal. As críticas pesam bastante... mas o mais importante é ter a consciência tranqüila do que a gente realizou até agora.
Terra - Você não acha que um ídolo como o Ronaldinho deveria ter um acompanhamento legal de um psicólogo, sem picaretagem, como supercampeões como Michael Phelps, da natação, e Yelena Isinbayeva, do salto em altura, têm?
Dunga - Não, ele é tranqüilo. Ele está sofrendo mais do que todos, porque ele ficou quatro meses em jogar. É uma pessoa muito positiva dentro do grupo, tem colaborado com todos. A gente sabe como ele veio para cá, em que forma ele veio e da vontade que mostrou. Por isso eu acho que ele amadureceu ainda mais e está voltando a ser aquele Ronaldo que todo mundo conhece.
Terra - Arlindo Chinaglia, presidente da Câmara dos Deputados disse o seguinte: "Dunga já deveria ter caído". Como você reage a esta declaração?
Dunga - É normal no futebol que aconteça esse tipo de situação. A gente tem de estar preparado para isso. Quando se ganha, tem outro tipo de comunicação. Quando se perde, é mais do que o normal, porque falam o que as pessoas querem ouvir. Tem de ter a frieza de... não digo aceitar, mas continuar o trabalho e ter consciência daquilo que está se fazendo.
Terra - Você acha que está sendo "fritado"? Você tem medo de perder o cargo?
Dunga - Não tenho medo de nada no futebol, não me apego a essas coisas. Outras coisas vão acontecer na minha vida, seja como técnico ou não, e eu vou saber como encarar. Meu caminho é a minha estrada. Te digo uma coisa, não puxo o saco e não faço lobby por nada aqui. Tenho minhas convicções e sou transparente.
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Redação Terra