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Pequim 2008

Sexta, 22 de agosto de 2008, 14h10 Atualizada às 14h36

Após ouro, técnico lê carta escrita por Maurren

Maurren Maggi comemora ao lado de técnico
Maurren Maggi comemora ao lado de técnico
Julio Gomes Filho/Especial para Terra

Julio Gomes Filho
Direto de Pequim

Nélio Moura tem lágrimas nos olhos, um ramo olímpico de flores na mão direita e uma carta na mão esquerda. Foi com uma caneta esferográfica vermelha que Maurren Maggi escreveu suas últimas palavras antes de ser uma mulher diferente, antes de ser a primeira medalhista olímpica da história do atletismo do Brasil.

"Queridos Nélio e Tânia". Assim começa a carta destinada ao casal que comanda os treinos da brasileira.

"Vou fazer meu melhor, quero saltar muito. Fazer o que sei melhor, saltar sem limites, sem obstáculos. Estou pronta. O resto é conseqüência. Obrigada por tudo, por não desistirem de mim". Moura lê com voz embargada. "Como se desse para desistir dela", murmura. Ele só leu o recado após a conquista do ouro, momentos antes da premiação.

Maurren Maggi costuma mandar recados aos treinadores por SMS (mensagens de texto via celular) antes das provas. Como está sem telefone celular em Pequim, resolveu abrir o coração em uma folha branca de papel.

"Eu fui chamar ela para aquecer, ela estava sentada escrevendo. Pensei. 'Bom, daqui a pouco eu chamo ela de novo'. Mas só agora a Tânia me deu a carta. A Maurren sabe que isso daqui é parceria, se alguém tem que agradecer sou eu, porque eu nunca vivi uma emoção maior na minha vida. Eu tenho que agradecer por ela ter tido a força de querer voltar, de ter se dedicado o tanto que ela se dedicou. Todo mundo quer isso, o mundo inteiro quer isso. Ela se imortalizou", comentou o técnico.

Moura também treina o panamenho Irwing Saladino, ouro olímpico no salto em distância. Ele refuta o rótulo de "melhor treinador do mundo" e diz apenas que é "o mais feliz do mundo".

A volta de Maurren Maggi ocorreu após uma suspensão de dois anos por doping e o nascimento da filha Sofia. Ela havia abandonado o esporte, mas decidiu retornar ao atletismo e chegou ao ápice na noite desta sexta em Pequim.

"Na carta ela fala dessa separação, diz que ela gosta de estar com a gente. E pode ter certeza que é recíproco. O tempo que ela passou fora foi muito duro para nós, mas quando ela voltou à pista, ficou diferente. As melhores coisas que aconteceram nas nossas vidas foram depois que ela voltou. Com ela agora, com o Irwing (Saladino) também, com os outros meninos. Ela faz toda a diferença. Isso aqui é a minha medalha", disse, com a carta em mãos.

"Na carta eu coloquei tudo o que eu pensava, tudo o que eu tinha sentido. O Nélio e a Tânia podiam ler antes da prova. E tudo o que aconteceu estava escrito. Eu não previa medalha, mas o meu melhor salto", admitiu Maurren.

Nélio Moura lê a carta e alterna com comentários. "Antes de aquecer, estava pronta. Deu duro o ano todo para isso e diz que ela está atrás da medalha, que a medalha vai ser conseqüência do trabalho dela. Madura demais essa mulher, nossa."

"Vou fazer meu melhor, quero saltar muito. Fazer o que sei melhor, saltar sem limites, sem obstáculos. Estou pronta. O resto é conseqüência. Obrigada por tudo, por não desistirem de mim. Amo vocês, vejo vocês depois da prova."

Quando eles se viram novamente, o ouro já era de Maurren.

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Redação Terra