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"Patriotadas" em transmissão dos Jogos geram críticas nos EUA

22 fev 2010
11h31
atualizado às 13h29
Alessandra Stanley

O curling é um dos prazeres secretos favoritos dos Jogos de Inverno. Mas outra diversão ligeiramente vergonhosa é reclamar e resmungar quanto às patriotadas e ao sentimentalismo da cobertura olímpica pela rede NBC de televisão.

A tecnologia evolui, os organizadores acrescentam novas modalidades - este ano, por exemplo, o esqui cross -, mas a cobertura olímpica da NBC, que acompanha os atletas de muito perto e é pessoal até demais em termos de tom, parece jamais mudar. E em Vancouver, os melhores momentos daquilo que a rede define como "Team USA" parecem despertar os piores exageros retóricos e de imagem por parte da emissora.

Em um momento no qual atletas americanos estão conquistando número recorde de medalhas e a NBC atrai um público impressionante, os torcedores do esporte não poderiam pedir por uma cobertura mais patriótica e mais escancaradamente pró-americana. Mas muitos deles talvez estejam pedindo por um pouco menos disso.

Os âncoras da NBC, entre os quais alguns que trabalham para a divisão de notícias e não para a de esportes, não se cansam de elogiar o glamour e a glória de campeões bem apessoados - como prova a aprovação irrestrita exibida por Matt Lauer ao entrevistar Lindsey Vonn para seu programa Today depois que ela conquistou o ouro na prova de downhill.

Ele pendurou uma medalha de chocolate envolta em papel dourado no pescoço da atleta, lhe ofereceu flores ("porque nós simplesmente te adoramos") e a abraçou calorosamente ("temos tanto orgulho de você!") - mais ou menos como se ele e sua co-apresentadora, Meredith Vieira, tivessem passado os últimos 15 anos acordando ao raiar do dia para ver Vonn treinar.

Todos os países dedicam atenção especial, e lisonjas, às suas equipes. Mas os comentaristas da NBC parecem tão apegados a esse roteiro - e a biografias absurdamente lisonjeiras preparadas com antecedência sobre os atletas - que chegam a reagir como se qualquer desvio dessa norma de elogios perpétuos representasse uma violação do dever patriótico.

Até mesmo o calmo e profissional Bob Costas - que representa a única exceção ao sentimentalismo que domina a cobertura da NBC - sentiu que tinha a obrigação de se explicar, na noite de sábado, por elogiar a inesperada vitória - e a contagiante alegria - de Mark Tuitert, 29, um patinador holandês que surpreendeu a todos, e até a si mesmo, ao superar o americano Shani Davis na prova dos 1.500 metros.

"Não que isso deva reduzir o interesse dos Estados Unidos sobre Shani Davis e Chad Hedrick", comentou Costas, em tom de lástima. "Mas o significado de uma vitória como essa na Holanda - bem, a patinação é o esporte nacional para eles, é algo de muito importante por lá". E Costas continuou falando sobre o herói holandês enquanto a tela por trás dele ficava ocupada por uma imensa imagem de Davis, que ficou com a medalha de prata.

Os índices de audiência dos jogos de Vancouver estão altos e chegam até a superar os de American Idol. A NBC está tão envolvida em promover ídolos e emoções que algumas modalidades esportivas estão sendo cobertas como se o tempo, e a tecnologia, tivessem parado em 1999.

Os jogos do Super Bowl são mostrados ao vivo e seus produtores usam não apenas replays em câmera lenta mas recursos gráficos sofisticados para explicar a ação. Até mesmo eventos de gala como o Oscar usam recursos gráficos em 3D e câmeras especiais para identificar os erros e acertos de moda.

Mas muitos dos eventos ao vivo em Vancouver estão sendo narrados como se ainda vivêssemos a era do rádio. Isso faz com que narradores entusiásticos demais expliquem toda a ação verbalmente, e que se atropelem ao fazê-lo, tornando-se incompreensíveis. Os telespectadores que estavam assistindo a uma prova de snowboard na semana passada foram informados de que o estilo de Shaun White no halfpipe era "maciço", e tinha muito de "ar", mas foi apenas no dia seguinte que a NBC usou recursos gráficos avançados para demonstrar a complexidade das manobras aéreas que caracterizam o trabalho do atleta.

A rede chegou até a demorar demais para explicar porque a americana Kelly Clark apareceu cantando na tela, em modo karaokê, pouco depois de conquistar uma medalha de bronze no halfpipe. Na manhã seguinte, Jenna Bush Hager, correspondente especial de snowboard da rede e filha do ex-presidente George W. Bush, informou que os fones de Kelly estavam tocando "You Shall Love Me", de Mysty Edwards.

Já a cobertura das provas de esqui não poderia ser mais avançada em termos tecnológicos ou mais diretamente intrusiva. Nos momentos seguintes à vitória de Vonn na prova de downhill, já havia uma câmera e microfone ao seu lado, enquanto ela celebrava abraçando Thomas, seu marido e técnico. Ela não conseguia parar de chorar, e Thomas Vonn foi terno e discreto, murmurando palavras de carinho. Foi um momento tocante, mas também um tanto forçado - mais ou menos como se um presidiário trocasse juras de amor com a cônjuge sob os olhos vigilantes de um guarda penitenciário.

Na NBC, tudo termina se transformando em espetáculo televisivo, até o ponto do exagero. A rede transformou a equipe feminina de snowboard dos Estados Unidos em versões de Carrie Bradshaw. Kelly Clark, Hannah Teter e Gretchen Bleier foram mostradas como "as três amigas" do esporte, que não só concorrem nas se divertem juntas, como se fossem personagens da série Sports and the City.

Pode ser que a amizade tenha substituído a hostilidade como atrativo. Até o momento, a NBC vem registrando a maior audiência já conquistada para uma Olimpíada de Inverno no exterior desde que o enrosco entre Nancy Kerrigan e Tonya Harding gerou audiência recorde para os Jogos de 1994, em Lillehammer, Noruega.

Uma cobertura que tente promover os bons sentimentos merece elogios. Não havia nada a criticar no fato de a NBC ter dedicado alguns minutos de horário nobre à Hannah's Gold, a organização de caridade de Teter, que arrecada dinheiro para crianças no Quênia. Mas no sábado,a rede dedicou minutos preciosos de seu telejornal no horário nobre a uma reportagem especial que mostrava Mary Carillo, uma antiga jogadora de tênis tornada comentarista esportiva, passando pelo processo de treinamento de um membro da polícia montada canadense - do treinamento básico à túnica vermelha e chapéu característico.

É esse tipo de estereótipo forçado que alimenta a raiva quanto à cobertura olímpica. Comentaristas que parecem conhecer nos mínimos detalhes todos os traumas de infância dos atletas americanos ocasionalmente tropeçam nos piores clichês ao descrever atletas estrangeiros. Na visão do mundo da NBC, a equipe chinesa de snowboard é "rígida" demais, os austríacos são "disciplinados" e os dinamarqueses são temperamentais. Um comentarista de curling disse que as integrantes da equipe dinamarquesa do esporte eram emocionalmente "frágeis", e usou comentários de um psicólogo esportivo na partida entre a equipe dinamarquesa e a americana.

Nas provas de duplas no bobsled, sábado, um narrador da NBC, em busca de algo a dizer sobre o atleta alemão Karl Angerer, afirmou, em tom sabichão, que "ele tem uma mentalidade bávara", o que quer que isso signifique. Quando o esquiador canadense Alexandre Bilodeau venceu uma medalha de ouro na prova de mogul, a NBC teve de recorrer a uma rede canadense de TV para uma história de interesse humano sobre Bilodeau e seu irmão, Frederic, que sofre de paralisia cerebral.

A NBC está tão determinada a ressaltar o companheirismo e as emoções da vitória que negligenciou os atrativos televisivos de uma derrota agonizante, a da Rússia. A NBC mal dedicou atenção ao amargor russo com o fato de que o patinador artístico Yevgeny Plushenko tenha perdido o ouro para o americano Evan Lysacek, mesmo depois que o primeiro-ministro russo Vladimir Putin mencionou o assunto em tom de desdém que fez lembrar a era da Guerra Fria. Os Jogos de 2014 acontecerão em Sochi, uma cidade turística no Mar Negro, e a Rússia será a anfitriã. Para os telespectadores que querem mais informações do ponto de vista internacional, a rede de notícias a cabo CNN talvez seja a melhor opção.

Jogos Olímpicos de Inverno no Terra

O Terra transmite ao vivo a competição em 15 canais simultâneos de vídeo. Além disso, os usuários têm a possibilidade de assistir novamente a todo o conteúdo a qualquer momento. Todo o acesso é gratuito.

Uma equipe de 60 profissionais está encarregada de fazer a cobertura direto de Vancouver e dos estúdios do Terra, em São Paulo, no Brasil, com as últimas notícias, fotos, curiosidades, resultados e bastidores da competição.

A equipe conta com a participação do repórter especialista em esportes radicais Formiga - com 20 anos de experiência em modalidades de neve -, e o pentacampeão mundial de skate Sandro Dias, que comenta a competição em seu blog no Terra.

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Tradução: Paulo Migliacci

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The New York Times
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