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Recordista no Brasil, argentino Cuattrin "rema" em busca de talentos

17 ago 2011
09h22
atualizado às 09h25
Anderson Rodrigues
Direto de São Paulo

O maior canoísta da história do Brasil recolheu sua embarcação, a colocou nas costas e decidiu sair da água. Água que nunca teve sabor doce, desde que chegou aos cinco anos após cruzar com os pais o Rio Paraná, vindo de Rosário. Sebastián Cuattrin começou no esporte em Governador Valadares, em Minas Gerais, aos 13 anos. Nunca negou suas raízes, mas defendeu como poucos a bandeira verde-amarela.

Sebastián sempre remou contra a falta de apoio, patrocínios e condições de fazer o que mais amou: a canoagem de velocidade. Argentino, conhece como poucos o Brasil. Remou mais. Foi o primeiro brasileiro a levar o País aos Jogos Olímpicos (Barcelona 1992) e Pan-Americanos (Havana 1991).

Com quatro olimpíadas na carreira (Barcelona, Atlanta-1996/finalista, Sydney-2000 e Atenas-2004), é o brasileiro com maior número de medalhas pan-americanas no esporte. Nas quatro últimas edições, colocou 11 no peito (1 ouro, 6 pratas e 4 bronzes), das 17 conquistadas em toda a história do Brasil (Veja a relação ao final da entrevista). Com seu primeiro ouro, ao deixar a raia da Marina da Glória, no Rio, em 2007, decidiu encerrar a carreira aos 33 anos, mas não esperava um desafio maior que viria pela frente.

O canoísta foi convidado pela CBCa (Confederação Brasileira de Canoagem) para ser técnico da Seleção Brasileira Júnior. Conquistou a confiança de treinadores e atletas e ganhou uma missão maior. É atualmente supervisor do Comitê de Canoagem Velocidade (canoa e caiaque) e tem como objetivo seguir navegando pelo País em busca de talentos.

Em julho, vibrou pela primeira vitória fora das raias com a maior conquista da história da canoagem brasileira ao ver o jovem Isaquias Queiroz, 17 anos, ser campeão mundial júnior (C-1 200 m, canoa individual).

Em entrevista ao Terra, Cuattrin fala sobre o futuro da modalidade e os desafios do projeto 2016, nos Jogos Olímpicos do Rio. E, quem sabe, ver o Brasil conquistando a primeira medalha olímpica. O dirigente está na Hungria, onde seus pupilos iniciam a corrida por uma vaga em Londres, com a disputa do Campeonato Mundial de Szeged.

Terra - Você foi um dos maiores canoístas da história do Brasil. Nasceu na Argentina, nunca negou suas raízes e defendeu com orgulho nossa bandeira. Qual foi o seu sentimento no dia em que decidiu parar, após 11 medalhas pan-americanas e finalista olímpico?
Sebastián Cuattrin - Foi um dos momentos mais difíceis da minha vida. Sabia que teria que fazer isso algum dia, mas nunca se está preparado para abandonar aquilo que te trouxe tantas alegrias. Foi realmente uma decisão difícil de tomar, mas tive o apoio da família e da própria CBCa (Confederação Brasileira de Canoagem), que, assim que soube que eu havia parado, entrou em contato e me ofereceu o cargo de treinador da equipe nacional masculina na categoria júnior.

Terra - No Rio, em 2007, a conquista de seu ouro inédito foi a coroação de sua carreira como atleta? E como foi essa mudança para dirigente?
Sebastián Cuattrin - Realmente, a conquista dessa medalha foi uma das maiores vitórias da minha vida. Foi muito duro, 18 anos de espera para conseguir atingir e conquistar um sonho. Ser dirigente não foi fácil. Apesar de minha formação ser em Educação Física, sempre estive ligado e aprendendo sobre administração esportiva e empresarial. Logo que deixei de ser atleta, fui convidado para ser treinador. Pude ensinar e passar aos mais jovens o que aprendi durante todos estes 20 anos como atleta. Não deixa de ser uma mudança radical, estar fora da água e ter que torcer pelo resultado. Não fazia parte dos hábitos, eu estava acostumado a estar lá dentro, lutando para resolver. Agora sofro e me emociono mais, pois vejo coisas externas que antes não conseguia. Estou envolvido demais com todos os processos de preparação das equipes e tenho uma luta diária para estar cada vez mais perto da perfeição para oferecer aos atletas o que há de melhor para a preparação de alto rendimento.

Terra - O Brasil é o País com maior quantidade de rios, lagos e represas do planeta. Dentro da canoagem, há modalidades de caiaque e canoa de velocidade, além do slalom (caiaque em corredeiras). Você já remou por muitos lugares. É um desafio como dirigente potencializar o esporte e encontrar talentos?
Sebastián Cuattrin - Sim, é um grande desafio conseguir encontrar talentos espalhados por esse enorme País. Nosso principal desafio agora é massificar o esporte, dar oportunidade para que diversas regiões com acesso a rios e lagos possam ter auxílio na montagem e manutenção de escolas de canoagem. Sabemos que o desafio é grande, mas temos como parceiros o COB, o BNDES, todas as esferas dos Governos e muita força de vontade para superar este obstáculo e transformar o país numa potencia olímpica.

Terra - Quais as ações que a canoagem brasileira pode tomar para formar um atleta e como aumentar o número de praticantes?
Sebastián Cuattrin - Ações já vêm sendo feitas com programas de desenvolvimento de talentos em parceria com o Solidariedade Olímpica e o COB. Temos Centros de Treinamentos aonde são hospedados os atletas de melhor performance no país e concentrados de forma a trabalhar com os melhores profissionais e recursos disponíveis para a canoagem. Já para o desenvolvimento e o aumento do número de praticantes, temos trabalhado em várias frentes, que incluem projetos de apoio a escolas, capacitação de treinadores, desenvolvimento de novas tecnologias, aquisição e solidificação de novas parcerias e apoio aos clubes já existentes.

Terra - Quando você se preparou para o Pan do Rio, em que conquistou seu ouro inédito, contou com a ajuda de um técnico húngaro (Akos Angyal). Agora, a Confederação está trazendo um treinador de todas modalidades (Zoltán Bakó, também importado da Hungria). Foi uma indicação sua? E o que os húngaros podem acrescentar para o projeto 2016?
Sebastián Cuattrin - Foi uma indicação e um consenso da diretoria da Canoagem de Velocidade com o presidente da CBCa. Sabemos que a Hungria é o país da canoagem. Lá é o esporte com mais adeptos e praticantes, o esporte número um e trouxemos um dos técnicos mais renomados da canoagem mundial para ajudar a desenvolver nosso sistema de trabalho, desde a base até o alto rendimento, e nos proporcionar uma chance de conquistar, quem sabe, medalhas em 2016. Toda a sua experiência e conhecimento será transmitido aos nossos treinadores para formar e melhorar o nível que já temos no Brasil.

Terra - Quando era atleta, você lutava por patrocínios e apoio de prefeituras para competir. Atualmente, o Governo oferece o Bolsa-Atleta e o COB ajuda com viagens e incentivos em participações em torneios. A situação melhorou para quem pratica canoagem? Um dia será possível viver deste esporte?
Sebastián Cuattrin - A situação hoje é bem melhor do que na minha época. Os programas federais, estaduais e municipais de auxílios e custeios de treinamentos para os atletas têm possibilitado uma dedicação integral ao esporte. Hoje já é possível viver do esporte, proporcionando conforto para a sua família. Claro que estamos longe de patamares como o do vôlei e milhares de quilômetros dos encontrados no futebol, mas posso afirmar que hoje os nossos melhores atletas já podem se manter com a canoagem.

Terra - Sua presença em torneios internacionais, principalmente de jovens, é uma maneira de planejar o futuro da canoagem? Como consegue contribuir? Tem liberdade para ajudar com sua experiência nos treinamentos?
Sebastián Cuattrin - Minha presença nos torneios com os jovens é uma forma de incentivar e passar um pouco de experiência para a novas gerações, mas o grande objetivo do meu trabalho é organizar toda a parte de logística com o apoio da CBCa e do COB para que eles possam ter tranquilidade de treinamento e segurança nas competições. Além de estar ligado no presente, olho sempre para o futuro do desenvolvimento da modalidade no país, pesquiso com meus amigos fora do Brasil e sondo as iniciativas de sucesso para ver o que pode ser transferido e aplicado no Brasil. Como diretor técnico da modalidade na CBCa, tenho liberdade para dar sugestões e fazer algumas proposições no treinamento, comportamento e na organização das equipes, mas sempre respeito e levo em consideração que a decisão e a responsabilidade final é do treinador. Procuro ser discreto e não interferir muito no sistema, minhas intervenções tem que ser sempre de forma gradativa e no sentido de ajudar.

Terra - O Brasil conquistou no Rio seu melhor desempenho em número de medalhas: seis (um ouro, duas pratas e três bronzes). Qual sua expectativa em relação à Guadalajara? O Brasil pode sentir a ausência de Sebastián (11 medalhas pan-americanas)?
Sebastián Cuattrin - Nossas expectativas de medalhas em Guadalajara são muito boas e esperamos superar a marca atingida no Rio, tanto em quantidade como em qualidade. O Brasil está bem representado, tem atletas muito bem treinados e de grande potencial para conseguir chegar mais longe do que onde eu cheguei. Estarei muito feliz e realizado fazendo parte desse time que contribuiu para que os feitos do passado fossem superados. Essa é a verdadeira realização, saber que a árvore dos resultados da canoagem foi plantada por atletas e sonhadores antes de mim, que eu reguei, vi crescer e que esta nova geração dará frutos. Dessa forma me sentirei realizado ao extremo.

Confira a evolução do Brasil em medalhas na canoagem em Jogos Pan-Americanos:

1995 - Jogos de Mar del Plata/Argentina: 2 medalhas
2 Bronzes (K-1 1000 m* e K-2 1000 m*)

1999 - Jogos de Winnipeg/Canadá: 5 medalhas
2 Pratas (K-1 1000 m* e K-2 1000 m*); 3 Bronzes (K-1 500 m, K-2 500 m* e K-4 1000 m*)

2003 - Santo Domingo/República Dominicana: 5 medalhas
1 Ouro (K-2 500 m); 3 Pratas (K-1 1000 m*, K-1 500 m* e K-4 1000 m*); 1 Bronze (K-2 1000 m)

2007 - Rio de Janeiro/Brasil: 6 medalhas
1 Ouro (K-4 1000 m*); 2 Pratas (C-2 1000 m e K-1 1000 m*); 3 Bronzes (K-1 500 m, C-1 500 m e C-2 500m)

*Medalhas com participação de Sebastián Cuattrin

Total na história: 18 medalhas
2 Ouros
7 Pratas
9 Bronzes

Argentino naturalizado brasileiro, canoísta encerrou a carreira após 11 medalhas em Pans e virou dirigente
Argentino naturalizado brasileiro, canoísta encerrou a carreira após 11 medalhas em Pans e virou dirigente
Foto: Reinaldo Marques / Terra
Fonte: Terra

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