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Ex-capitão francês, Forget dá conselho a Bellucci e pede base

16 out 2012
07h37
Giuliander Carpes
Direto do Rio de Janeiro

Guy Forget não foi o melhor tenista francês de todos os tempos, mas certamente se tornou um dos mais influentes. Depois de fazer parte da equipe que venceu a Copa Davis em 1991 e 1996, o ex-número 4 do mundo virou o capitão do time, posto que resolveu deixar após a derrota para os Estados Unidos nas quartas de final deste ano. Mesmo assim, ele continuará sendo diretor do Masters 1000 de Paris, agora no final do mês de outubro, trabalhando na organização do Grand Slam de Roland Garros.

No Brasil para disputar um torneio exibição no Rio de Janeiro, o francês, 47 anos, falou ao Terra e deu conselhos ao tênis brasileiro. Para Forget, formar uma equipe competitiva de Copa Davis passa por ter muitas crianças e jovens praticando tênis, o que não é bem a realidade do Brasil, onde o futebol é o esporte predileto e praticamente monopolizador.

Se o Brasil só tem um tenista atualmente com potencial para ser um dos melhores do mundo, Forget deu conselhos para que Thomaz Bellucci, atual 37° no ranking da ATP, possa chegar mais perto do top 20: melhorar a variedade de seus golpes, em vez de apostar apenas na força, o que já não é mais um diferencial em tempos de um tênis com estilo homogeneizado entre jogadores fortes de fundo de quadra.

Confira a entrevista com Forget:

Terra: qual o segredo para a França ter tantos bons jogadores?
Guy Forget: você só tem um time bom de Davis quando tem bons jogadores. E só tem bons jogadores quando muitas crianças e jovens jogam tênis. Por que o Brasil é tão bom no futebol? Porque você vai às praias e a qualquer lugar e há muitas crianças jogando futebol. Se não houvesse tantas crianças jogando futebol no Brasil, a Seleção Brasileira não seria tão boa quanto é. Nós (na França) temos muitas crianças jogando os torneios de clubes a cada final de semana. Quando o jovem chega aos 18 anos já jogou centenas de partidas em competições. Já tem experiência e, eventualmente, pode jogar a Copa Davis pela França. Na Espanha, eles estão fazendo tão bem quanto nós, senão melhor, com menos investimento. Hoje em dia França e Espanha são os países que melhor trabalham a base.

Terra: a França conseguirá ter jogadores para substituir as estrelas atuais como Tsonga, Simon, Gasquet no futuro?
Guy Forget: uma geração como a que temos agora é difícil de bater. Veja o exemplo da Suécia, que chegou a ter quatro tenistas do país entre os oito de um Masters. A Suécia fez ainda mais do que nós se levarmos em consideração que é um país pequeno e com poucos jogadores.

Terra: o Brasil chegou a tomá-los como exemplo.
Guy Forget: sim, eles acabaram por se tornar um grande exemplo. E agora têm poucos jogadores. Então talvez seja difícil termos tantos bons jogadores no futuro como temos agora. Mas nós sempre teremos bons jogadores juvenis. Agora mesmo temos alguns. Eles estão entre os melhores. Com muito trabalho, daqui a três, quatro anos eles podem estar entre os 100, 50 melhores do mundo. Isso eu tenho certeza. Talvez não sejam tão bons como os tenistas franceses de hoje, mas serão bons o suficiente para estarem bem ranqueados.

Terra: está ficando muito difícil fazer a transição da categoria juvenil para a profissional. Os tenistas do top 10 hoje em dia têm mais de 25 anos. Alguns jogadores que esperávamos que estivesse já lutando pelo top 10 ainda não estão, como Bernard Tomic e Grigor Dmitrov.
Guy Forget: acho que eles não são tão bons quanto Nadal, Federer e Djokovic quando eles eram mais jovens. Eles são muito bons, mas não tanto no momento. Se Rafael Nadal tivesse 18 anos hoje, já seria top 10 com esta idade. Claro que está ficando mais difícil porque os tenistas estão cada vez mais fortes fisicamente e, quando você tem 18 anos, a menos que seja forte naturalmente, você ainda não tem a musculatura e a força de um adulto. Por outro lado, hoje as condições de equipamento, raquetes, encordoamento, etc, ajudaram que se bata cada vez mais forte na bola. Isso prejudicou os jogadores de rede e homogeneizou o circuito na força. Isso também complica para os mais jovens. Eles não são fortes o suficiente para bater os profissionais já estabilizados no topo.

Terra: o que você acha do potencial de Thomaz Bellucci, o melhor tenista brasileiro da atualidade?
Guy Forget: acho que ele já está maduro fisicamente. Ele consegue bater muito forte na bola nos dois lados. Acho que o próximo passo para ele seria melhorar a variedade dos seus golpes, fazer coisas diferentes. Ele é um cara que é forte, mas eu acho que pode fazer muito mais em quadra. Pode subir mais à rede para terminar os pontos com voleios porque ele é grande. Ele não vai bater mais forte na bola do que já bate. Nadal e Djokovic e até Murray, não vou nem falar do Federer, já fazem isso com mais frequência. Ele tem que pensar em como fazer seu jogo mais completo.

Terra: qual o seu prognóstico para a final da Copa Davis entre República Checa e Espanha?
Guy Forget: na República Checa, o confronto fica mais aberto. A Espanha continua sendo a favorita mesmo que Nadal não possa jogar (o espanhol se recupera de lesão nos joelhos). Mas quando Berdych joga bem ele pode ganhar de qualquer um. Pode ganhar seus dois jogos em três sets, especialmente em casa. Se Berdych ganhar seus dois pontos, a decisão fica para a dupla, e a parceria da Espanha é boa, mas não é excelente no nível dos irmãos Bryan pelos Estados Unidos, por exemplo. E Stepanek pode ser muito perigoso em quadra rápida. Será um confronto muito equilibrado. Vai ser bom de assistir.

Terra: e quais são seus planos para o próximo ano, já que você não estará mais à frente da equipe francesa da Copa Davis?
Guy Forget: eu vou continuar trabalhando com a federação francesa. Sou o diretor do Masters 1000 de Paris, trabalho em Roland Garros e faço comentários para a televisão também. Estou muito satisfeito com o que posso fazer porque fiquei à frente da equipe da Copa Davis por 14 anos. Embora seja uma ótima experiência, também é muito cansativo e desgastante.

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Foto: Mauro Pimentel / Terra
Fonte: Terra
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