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Guga detalha 3 a 0 em Federer e dores no Roland Garros que não venceu

7 jun 2013
09h04
atualizado às 09h21
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Gustavo Kuerten é tricampeão de Roland Garros, mas nenhuma de suas duas melhores partidas da vida aconteceu na campanha dos títulos em 1997, 2000 ou 2001. Em entrevista exclusiva ao Terra, o brasileiro recorda o Roland Garros que não ganhou: o de 2004, quando surpreendeu na terceira rodada o número 1 do mundo Roger Federer por 3 sets a 0, com parciais de 6/4, 6/4 e 6/4.

<p>Guga vibra ao bater Federer em Roland Garros 2004; catarinense considera vitória uma das duas maiores da carreira</p>
Guga vibra ao bater Federer em Roland Garros 2004; catarinense considera vitória uma das duas maiores da carreira
Foto: Getty Images

Pelas circunstâncias de desconfiança e dores no quadril que o cercavam, Guga considera aquela vitória uma das duas maiores da carreira: a outra foi conquistada sobre o americano Andre Agassi, curiosamente também por triplo 6/4, que lhe valeu o título da Masters Cup de 2000 e a condição de líder do ranking mundial.

No Roland Garros que não ganhou, Guga sentiu o “último gostinho” de que poderia ir além e conquistar o tetracampeonato. A campanha parou nas quartas de final, em uma partida emocionante contra o argentino David Nalbandian na qual perdeu por 3 sets a 1, com 6/2, 3/6, 6/4 e 7/6 (8-6).

No quarto set, sacou para fechar em 5/4 e 6/5 e chegou a ter três set points – ele se lembra especificamente de um deles e com a mão imita o golpe com o qual Nalbandian deu sorte e acertou a linha, salvando-se do perigo.

Apesar dos problemas físicas que o haviam feito operar o quadril em 2002, Guga se considerava mais inteiro para um eventual quinto set. Na sequência do torneio, enfrentaria Gastón Gaudio na semi e Guillermo Coria na final, dois argentinos sobre o qual detinha o domínio no confronto direto.

Kuerten não nega tratar 2004 como uma oportunidade perdida em Roland Garros. Somente a vitória na terceira rodada sobre Federer, porém, já coloca o brasileiro na história – desde então o suíço iniciou um recorde de 36 quartas de final consecutivas em Grand Slam.

<p>Surpreendido como número 1 do mundo, Federer admite ter subestimado Kuerten devido às condições físicas do brasileiro</p>
Surpreendido como número 1 do mundo, Federer admite ter subestimado Kuerten devido às condições físicas do brasileiro
Foto: Getty Images

Questionado sobre aquela derrota em visita a São Paulo em dezembro passado, o suíço admitiu ter “subestimado” o brasileiro, na época o número 30 do mundo. “Eu pensei: ‘ele não pode se mover, está cansado’. Mas um campeão do seu calibre nunca está em baixo nível. Ao final, Roland Garros, quadral central, Paris, é terra dele, não tanto a minha. Eu fiquei um pouco decepcionado, mas se tivesse que perder para alguém em Paris, que fosse para ele”, afirmou.

Kuerten aproveitou-se disso e jogou a “130%” de sua capacidade física, conforme analisa na entrevista concedida durante o Federer Tour na capital paulista, em desempenho que lhe deu ânimos para se submeter a uma segunda cirurgia no quadril. O resultado foi inverso ao esperado, e no ano seguinte Guga saiu do top 100 para jamais retornar. Ele só voltaria a vencer mais um jogo em Grand Slam até se aposentar, em Roland Garros, em 2008.

Confira a entrevista exclusiva com Gustavo Kuerten:

Terra: Em 2004 todo mundo se lembra de sua vitória contra o Federer, mas você fez um grande jogo também contra o Almagro, certo? Ele sacou para fechar a partida no quinto set, perdeu a chance e chorou em quadra após a derrota.
Gustavo Kuerten: Esse jogo com o Almagro foi até mais emocionante do que o meu com o Federer, né? Contra o Federer eu consegui controlar do início ao fim. Com o Almagro não sei de onde eu tirei força para vencer. Eu estava já bem comprometido, depois dos dois primeiros sets duros. Ganhei 7/6 e 7/6, mas aí ele começou a me atropelar, minha perna já não andava muito, tentei dar aquele ultimo estirão no quinto (abriu 4/0), prevaleceu um pouco a experiência. Na hora que ele teve o jogo na mão para sacramentar (sacou em 5/4) titubeou e a partir dali tomei conta da situação e finalizei por 7/5. Foi super emocionante: ele era um garotão ainda, dava para ver toda a perspectiva futura dele. E para mim abriu pelo menos uma oportunidade de deslumbrar algo diferente ainda em Grand Slam, porque desde 2001 eu não chegava às quartas de final. Depois teve Federer pela frente, mas aquele desafio com Almagro me preparou bastante para as encrencas futuras.

Terra: Na terceira rodada você enfrentava o Federer, número 1 do mundo, que havia ganhado dois dos três últimos Grand Slams. Você via pontos para acreditar na vitória?
Gustavo Kuerten: Acreditava. Eu contava com o favoritismo dele, isso era bem claro, mas eu encontrava hipóteses na minha cabeça de poder vencê-lo. E acho que fui muito feliz porque para ganhar dele naquele momento tinha de ser encaixadinho em três sets, não podia se prolongar muito. A estratégia tinha de funcionar do início ao fim, eu teria de estar em um dia inspirado – tudo isso aconteceu. Ele não deixava de ser o favorito, mas na ocasião eu consegui surpreendê-lo e jogar bem acima, porque para ganhar de 3 a 0 do cara em Grand Slam tem que tomar conta do jogo e ser realmente superior. Aí abriu uma janela de oportunidade de pensar melhor, foi o último gostinho que me deu em Grand Slam, que é a cereja do nosso bolo.

Nalbandian salvou três set points na quarta parcial e eliminou Guga em 2004
Nalbandian salvou três set points na quarta parcial e eliminou Guga em 2004
Foto: Getty Images
Terra: Você passou sem problemas por Feliciano López nas oitavas e perdeu para David Nalbandian nas quartas. Como foi esse jogo? Você teve três set points no quarto set, mas perdeu por 3 a 1.
Gustavo Kuerten: Pô, tive set point para ir para o quinto, ele mais cansado do que eu. É, a bola assim no canto pegou torta na raquete e entrou (faz gestos imitando o golpe), mas são fatores que acontecem. Analisando no final, de 5 Grand Slams com chances reais que eu tive lá em Roland Garros ganhei três (1997, 2000 e 2001) e em dois perdi (1999 e 2003, sempre nas quartas de final). Nos que eu ganhei também salvei alguns jogos que podia ter perdido, nesse caso acabei perdendo para o Nalbandian uma partida que poderia ter ganhado, mas faz parte. Mesmo assim fica como uma lembrança presente até hoje.

Terra: Você sentia que se a partida fosse para um quinto set você seria o favorito?
Gustavo Kuerten: É, porque ele também não tem tanta aptidão física. Na época não era muito bem treinado, já vinha em um jogo longo. A maior dificuldade com o Nalbandian é que ele responde (o saque) muito bem. Ele me fazia correr e me deslocar muito, então não conseguia gerar impacto. Não era nem muito (problema) de desgaste físico porque os pontos não eram tão largos. Eu me deslocava muito e não conseguia me apoiar muito, mas a longo prazo ele foi caindo e eu fui me levantando. Então se passa aquele set ali eu sinto que o jogo estava mais para mim.

Terra: Se você passasse pelo Nalbandian enfrentaria dois tenistas contra quem você tinha bom retrospecto: Gastón Gaudio e Guillermo Coria.
Gustavo Kuerten: Em 2002 e 2003 eu já sentia que não conseguia impor um nível para ganhar o torneio, mas ali eu senti uma chance real de vencer. Depois que ganhei do Federer estava nas quartas e depois tinha Coria e Gaudio pela frente, caras com os quais eu estava acostumado a duelar. Então me senti novamente competitivo naquele ano, por isso meu objetivo foi tentar fazer a (segunda) cirurgia (no quadril). Eu estava assim: ‘se melhorar um pouco quem sabe eu volto para o topo’. Aí deu o efeito inverso – a partir dali eu nunca mais engrenei até mesmo em um nível razoável para poder estar entre os 20 melhores (do mundo), o que era o caso constante naquela época.

Cena de Guga recebendo tratamento em quadra foi constante na carreira; ele se submeteu em 2013 à terceira cirurgia no quadril
Cena de Guga recebendo tratamento em quadra foi constante na carreira; ele se submeteu em 2013 à terceira cirurgia no quadril
Foto: Getty Images
Terra: Como era exatamente a sua condição física naquela época?
Gustavo Kuerten: Cara, eu sentia que não podia contar com meu corpo. E isso dá uma abismo de distância, de déficit para os caras que são número 1, 2, 3 do mundo. Então se o jogo durasse mais, ou se uma hora eu esticasse a perna, eu ia refugar, naquele ponto importante não ia chegar. Mentalmente é muito difícil para o jogador ter de lidar com essa dificuldade. Por isso que talvez junto com aquela final com o Agassi (na Masters Cup de 2000), a minha melhor performance em uma quadra de tênis foi em 2004 contra o Federer. Porque do que eu tinha ali consegui fazer um absurdo, joguei 130% do que podia extrair do meu corpo. E porque naquele momento eu já estava... Vejo aquela (exibição) do Agassi como primordial, eu podia ser numero 1 do mundo pela primeira vez, ganhar um torneio naquele piso (quadra dura), já tinha perdido para ele, tinha uma série de desafios. E esse outro jogo com o Federer era um desafio interno, físico, de poder se convencer de algo que não existe. O corpo não me dá, mas preciso me convencer de que é diferente, tentar acreditar em um imaginário assim, e foi surpreendente. É difícil até de explicar, porque é uma coisa muito interiorizada, mas eu considero como as duas maiores partidas. Se tivesse que escolher uma terceira possivelmente seria a do Moyá (em 1999, na Espanha, pela Copa Davis).

Terra: Mesmo com essas dificuldades fica a sensação de que você poderia ter sido tetracampeão de Roland Garros em 2004?
Gustavo Kuerten: É, a perspectiva era boa, mas como falei antes: contra o (Andrei) Medvedev eu também era meio que favorito em 1999, não venci. Mas também em 1997 foi absurdo: do nada acabei ganhando, impossível explicar o que aconteceu. E depois em 2000 eu tinha jogo pedido para o (Yevgeny) Kafelnikov (nas quartas de final) e em 2001 para o Michael Russel (nas oitavas de final), então compensou bem (sorri). Ganhei três e perdi duas. Está bom.

Relembre a campanha de Gustavo Kuerten em Roland Garros 2004:

Primeira rodada: bateu Nicolás Almagro (ESP/130 do ranking): 7/5, 7/6 (7-2), 1/6, 3/6 e 7/5
Segunda rodada: bateu Gilles Elseneer (BEL/100): 6/2, 6/0 e 6/3
Terceira rodada: bateu Roger Federer (SUI/1): 6/4, 6/4 e 6/4
Oitavas de final: bateu Feliciano López (ESP/25): 6/3, 7/6 e 6/4
Quartas de final: perdeu para David Nalbandian (ARG/8): 2/6, 6/3, 4/6 e 6/7 (6-8)

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Fonte: Terra

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