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Guga
Sábado, 23 de fevereiro de 2008, 10h39 
Disse para Guga aproveitar o dinheiro, conta fisioterapeuta
 
Eric Frosio
 
Marcelo Ruschel/Fotojump/Divulgação
Guga chora após sua eliminação da Costa do Sauípe
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Já fazia um bom tempo que os flashes não disparavam quando ele aparecia. Mas, em 12 de fevereiro, Gustavo Kuerten voltou ao tempo em que sua presença era grande atração. E pouco importa que o torneio de Costa do Sauípe, primeira etapa de sua despedida das quadras, não tenha permitido que ele brilhasse.

» Guga dentro das quadras
» Guga fora das quadras
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Depois de entrar emocionado na quadra para enfrentar o argentino Carlos Berlocq, o brasileiro se retirou 90 minutos mais tarde, com o rosto banhado em lágrimas, depois de agradecer uma vez mais pelo apoio do público. "Essa é minha característica dominante: nunca tentei esconder os sentimentos", ele disse.

A derrota (7/5 e 6/1) e as dores físicas não o abalaram. Depois de dois anos de esforço, Guga se sentia "aliviado". O longo tempo que dedicou à fisioterapia para resolver um problema de dores nas costas que por fim se provou insolúvel serviu para retirá-lo do esquecimento a que seus problemas físicos o haviam relegado.

Tudo havia começado um mês e meio mais cedo, em 3 de janeiro, em um bar a céu aberto localizado em sua terra, Florianópolis, no sul do Brasil. Ninguém sabia, então, mas o evento organizado para celebra assinatura de um contrato com marca italiana Diadora, que o equipava desde suas três vitórias em Roland Garros, também sinalizava um retorno às quadras que duraria algumas semanas - tempo suficiente para saudar a torcida uma vez mais, do Brasil à França, de Salvador a Roland Garros, onde tudo começou.

No dia seguinte, Guga compareceu fielmente ao encontro marcado. Eram pouco mais de 9h e, depois de pouco mais de uma hora de estrada, chegamos a uma fazenda localizada nas colinas verdejantes de Camboriú. Bem-vindos à academia de Larri Passos, o pai espiritual de Guga.

Sobre um sol abrasador, o treinador dedicava atenção aos 30 jovens que já estavam em ação nas quadras de terra batida. Foi na calma desse lugar que Guga conseguiu recuperar a competitividade em nível suficiente para poder iniciar seus torneios de despedida. Ver o tenista estendido na mesa de massagens, entregue aos cuidados de seu fisioterapeuta, Daniel Perini, permitia compreender rapidamente que a tarefa era complicada. A menor flexão da perna causava sofrimento. O rosto de Guga se contorcia e seu corpo se retorcia de dor, na sessão cotidiana de duas horas de "tortura" à qual ele estava sujeito nos dois anos precedentes.

O problema estava no tendão do músculo glúteo, atrofiado depois de duas operações sucessivas no quadril direito. Era preciso, portanto, forçá-lo a se alongar e a trabalhar, na esperança de que, com isso, viesse a adquirir consistência normal. Causa perdida. Nem os maiores cirurgiões e nem os curandeiros mais obscuros encontraram remédio. Portanto, a única solução era cerrar os dentes e agüentar a dor, apesar das lágrimas ocasionais. Seu leal preparador diz que "o lado mental dele é muito forte. Eu disse que era loucura, que ele deveria ir à praia, aproveitar o dinheiro que ganhou. Mas não: Guga é um leão. Ele ainda quer rugir, porque ama o tênis".

A ponto de se submeter com prazer ao sofrimento. "É difícil não poder baixar os braços", reconhece Guga. "Mas, para mim, ainda que se trate de um trabalho árduo, não representa um sacrifício. É um prazer estar aqui. Sinto boas vibrações em meio a essas colinas, e isso me dá a energia necessária para manter a fé".

Na quadra, treinando com Larri Passos, Guga trabalha no máximo 45 minutos. Seu corpo dita que não pratique por mais tempo que isso. Mas é o bastante para ver que seu estilo continua a ser o de um artista. "Ele será melhor que antes, com mais potência", diz Passos. "Seu backhand é melhor do que no passado. Ele pode ter perdido velocidade, mas, usando um jogo mais agressivo, sinto que tem chances de causar impacto".

O ex-número um do ranking mundial do tênis acredita na mesma coisa. "O quebra-cabeças continua o mesmo. Mas meu corpo agora representa um problema, porque não posso ficar por mais de uma hora na quadra. No que tange à técnica do tênis em si, não sinto complexos. Se eu tivesse de jogar contra um dos top 10 hoje, teria dificuldades para vencer, mas isso vai mudar".

De volta a Florianópolis, encontro o ambicioso futuro aposentado em sua loja, na rua Bocaiúva. O estabelecimento é espaçoso, refinado, e Guga atende alegremente ao pedido de uma sessão de fotos, em companhia de sua mãe. Depois de observar todos os modelos, o olhar dele se detém em uma tela de plasma que exibe sua final contra Sergi Bruguera, em 1997. Na imagem, seu rosto é jovem. Ele se anima, e vasculha suas lembranças. "O momento continua muito vivo em minha memória. Lembro-me bem daquele instante (o começo do primeiro set). Eu me sentia bem, não estava estressado, e me sentia muito seguro da vitória".

A prova dessa vitória está na sala de troféus. Uma curta jornada em seu Audi e Guga nos mostra a casa de sua família. Lá, em uma sala especialmente preparada, estão todas as suas taças, raquetes, lembranças. Ele apanha uma das pequenas réplicas da Copa dos Mousquetaires.

Antes de retornar a Roland Garros, com a camiseta azul e amarela que ele usa desde sua primeira vitória, em 1997, Guga terá de superar sua derrota na Costa do Sauípe e melhorar sua condição antes de continuar em sua turnê de despedida, que o levará a Miami, Florianópolis, Monte Carlo, Roma e Hamburgo. Seu futuro no tênis? Guga o imagina igualmente excitante.

Para começar, por meio de seu instituto IGK, cujo objetivo é ajudar as crianças carentes e os deficientes físicos, como seu irmão Guilherme, que morreu em novembro. "Eu quero muito promover o crescimento do instituto em todo o país. Esse será meu objetivo principal". O segundo projeto consistirá em promover o tênis brasileiro, com Larri Passos, para "aumentar o número de atletas em treinamento e formar campeões". Mas, dessa vez, ele deseja lançar luz sobre os outros.
 

L'Équipe