| The New York Times |
 Justine Henin anunciou aposentadoria do tênis profissional |
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A vida acontece. Mais cedo ou mais tarde, aquele golpe feroz de backhand que propicia a vitória deixa de ser tão emocionante, se comparado à exaltação que a chegada da maturidade pode propiciar.
"Agora começa minha vida como mulher", disse Justine Henin na quarta-feira, ao se retirar, aos 25 anos e completamente desgastada, de sua posição dominante no tênis feminino.
Será que o sacrifício de ter apenas 1,66m e pesar apenas 57kg na era do que Mary Carillo define como "tênis das grandalhonas" foi desgaste demais? Será que Henin, cuja carreira vinha em queda e que já ganhou "mais dinheiro do que posso gastar em três vidas", estava simplesmente passando por uma crise de metade de carreira e terminaria voltando às quadras?
"Eu sinto que ela falou sério", disse Carillo, uma comentarista de tênis incisiva, em conversa telefônica. "Justine sempre admirou Steffi Graf, e quando Steffi sentiu que havia chegado a hora de parar, ela parou, sem hesitações, ainda que estivesse bem perto de sua melhor forma".
No ano passado, quando Henin venceu o Aberto da França e o dos Estados Unidos e ocupou o primeiro posto no ranking feminino por 45 das 52 semanas, ela encontrou tempo para se divorciar do marido, Pierre-Yves Hardenne, e de se reconciliar com seu pai e irmãos, depois de viver distanciada da família por quase uma década. Ela saiu do casulo que a protegia e se permitiu respirar, sentir. É inteiramente possível que a sensação de liberdade a tenha agradado.
"Você está me dizendo que ela cometeu o temido erro de tentar ser feliz, de tentar levar uma vida equilibrada?", comentou Carillo, reconhecendo as viseiras que os atletas têm de usar para competir no nível mais elevado desse esporte, vagando de continente em continente, sem casa fixa, com folgas muito curtas.
Annika Sorenstam, campeã de golfe feminino, anunciou sua aposentadoria na terça-feira, ainda que no caso dela com comparativamente vetustos 37 anos. No tênis, a estrada que conduz aos 30 anos está atulhada de destroços de carreiras que se arruinaram mais ou menos na idade que Henin tem agora, pelo menos desde a disparada dos contratos publicitários e do valor dos prêmios, que permitem aos atletas uma vida luxuosa.
Do lado masculino, mesmo veteranos como Bjorn Borg, John McEnroe, Mats Wilander e Boris Becker conquistaram a maioria de suas vitórias antes dos 25 anos. Trata-se de indivíduos únicos, com personalidades e motivações distintas, mas que pessoa enriquece na casa dos 20 anos e não gostaria de apimentar um pouco uma vida definida pelas linhas das quadras desde a época em que tinha altura bem parecida com a da raquete com que treinava?
Ao risco de soar herético, até mesmo Roger Federer, 26 anos, pode não ser tão imune ao tédio do tênis. No verão do ano passado, ela parecia estar abraçando o Vincent Chase que traz em seu coração, em meio a festas e jantares oferecidos por pessoas como Anna Wintour, e depois partiu em viagem de lazer pela Ásia na companhia de Pete Sampras. Ao deixar de lado sua persona atlética, será que Federer perdeu um pouco a vitória de
vista? Os resultados dele este ano são causa de preocupação.
Talvez um percurso alternativo para chegar aos 30 anos seja permitir que a vida comece a se infiltrar aos poucos, em lugar de subitamente. O mundo do tênis se queixa há anos das empreitadas paralelas em que Venus e Serena Williams se envolveram, alegando que isso não as ajudaria a seguir os passos de Graf e de outras lendas do esporte. Mas elas continuam na ativa e, se não dominam mais as quadras, continuam a vencer torneios importantes, ocasionalmente, enquanto Henin, Marting Hingis, Kim Clijsters e outras esportistas mais concentradas no esporte já desistiram.
"Talvez Venus e Serena permaneçam mais tempo no esporte porque se permitiram algumas paradas ocasionais", disse Larry Scott, presidente-executivo da Associação de Tênis Feminino. "Eu posso afirmar que apenas um atleta notável conseguiria se afastar do esporte e retornar jogando bem como elas fizeram algumas vezes".
A inferência é a de que Henin, porque é pequenina, poderia perder sua vantagem. Explorando sua versatilidade, determinação e um backhand exemplar, ela conquistou sete títulos de Grand Slam e vem sendo a melhor jogadora do circuito nos últimos anos, mas sempre manteve uma certa vulnerabilidade, oculta precariamente sob os bonés de beisebol que são sua marca registrada.
Como disse Carlos Rodriguez, por muito tempo técnico da tenista, depois que Henin saiu derrotada de uma partida contra uma oponente que nem constava do ranking do tênis, em uma partida do US Open, "nós tentamos lembrar a ela o tempo todo que ela é a número um, porque Justine muitas vezes se esquece disso".
Henin optou deliberadamente por não desenvolver talentos paralelos, e nunca se posicionou como potencial modelo para as passarelas. Ela não é como as irmãs Williams ou como Maria Sharapova no que tange ao marketing. Por isso, Scott desembarcou de um avião em Roma na quarta-feira para comentar, sobre o anúncio da inesperada aposentadoria de Henin e seu efeito sobre o esporte como um todo, que "não vamos perder o sono por isso".
Por mais fria que soe essa declaração, Scott não demorou a acrescentar que assistir a Henin na quadra era uma alegria para os verdadeiros fãs do tênis em todo o mundo, desde o dia em que ela surgiu até o momento em que telefonou para lhe comunicar sua saída.
Ele não estava chocado, porque Henin lhe havia confiado, no final do ano passado, "que ela não compreendia, até deixar a raquete e tirar umas férias, o quanto aquele ano a havia afetado e levado a mudar como pessoa".
Jogar o Aberto da França, um torneio que Henin venceu por quatro vezes, parece já não importar. Uma vitória em Wimbledon, o único dos torneios do Grand Slam que ela não conquistou, não valeria o sacrifício de persistir nas quadras por mais dois meses. Assim, a partir da data do anúncio, a vida se tornou a prioridade número um para a tenista.
Tradução: Paulo Migliacci ME
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