| The New York Times |
 Pete Sampras brinca com o filho e dedica seu tempo à família |
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Pete Sampras mal se havia acomodado para o almoço da sexta-feira quando o seu celular começou a vibrar sobre a mesa. Era alguém respondendo à mensagem de SOS que ele havia enviado depois de passar a manhã inteira cuidando de seus dois filhos superativos. A voz ao telefone estava confirmando a locação de um barco para um passeio no Lago Sherwood, naquela tarde.
Sampras, desesperado por convencer seus dois filhos - Christian, 6, e Ryan, 3 - a descansarem um pouco, havia decidido que a melhor solução seria levar os meninos para pescar.
Ele repetiu o nome do barco em voz alta, para guardá-lo melhor na memória: Low Profile.
Parecia o barco perfeito para um homem que vem se dedicando acima de tudo a manter a discrição. Nos anos em que Sampras, 37, dominava o tênis, ele funcionava como um rei enclausurado, dedicado a construir um imenso legado por meio de uma estrutura cerrada e férrea, composta por repetição e rituais ininterruptos.
Desde que se aposentou formalmente do esporte, em 2003, Sampras vem se mantendo igualmente invisível, e optou por se dedicar ao ruído e bagunça inevitáveis de uma vida como pai, e a dedicar sua atenção ao desenvolvimento da porção humana de seu legado.
Sampras talvez venha a receber um telefonema urgente de algum dirigente do All England Club, a organização que administra o torneio de tênis de Wimbledon, ou de alguma rede de televisão, nos próximos dias, na esperança de convencê-lo a estar em Londres para assistir à final do torneio caso Roger Federer se classifique para ela.
Se Federer, que já chegou à quarta rodada do certame, vencer seu sexto título em Wimbledon, terá chegado à 15ª vitória de sua carreira nos grandes torneios mundiais de tênis, superando o atual recorde, ainda detido por Sampras.
Será que Sampras estaria interessado em viajar à Inglaterra para saudar as realizações de seu sucessor? "Não sei direito", respondeu o tenista.
"Seria uma viagem muito longa para alguém que estaria apenas fazendo figuração nas festividades", ele disse. E requereria que ele deixasse a companhia de seus meninos - ou, ainda menos palatável, que os levasse com ele.
"Você já tentou viajar com um menino de seis e um de três anos?", ele perguntou, rindo.
Se existe um lugar no mundo capaz de fazer Sampras esquecer um pouco a sua rotina, certamente se trata de Wimbledon. Foi lá que ele venceu sete títulos de simples, e perdeu apenas quatro dos games em que tinha o saque durante as sete finais em que triunfou. Foi lá também que, em 2000, superou uma desvantagem de um set a zero em favor de Pat Rafter e virou o jogo final para suplantar Roy Emerson como o tenista mais vencedor da história do tênis masculino, chegando a 13 grandes títulos. (Sampras ampliou o recorde em 2002 com uma vitória no U. S. Open, bem depois que a maioria dos observadores do tênis passaram a considerá-lo como ultrapassado.)
Este período de duas semanas, em que Wimbledon domina as manchetes esportivas do planeta a cada ano, é o único, diz Sampras, em que ele sente falta da vida que levava como jogador profissional de tênis.
"Não existe outro lugar no mundo que se compare à quadra central de Wimbledon", ele afirma. "É extremamente emocionante jogar lá".
O título que ele conquistou em Wimbledon em 2000 foi o seu quarto consecutivo no torneio, mas esteve longe de ser uma realização rotineira. "Passei por duas semanas das mais difíceis, daquela vez", ele conta. Na primeira semana do torneio, chegou a ser hospitalizado com uma lesão de tornozelo que continuou a incomodá-lo pelo resto da disputa, a despeito de injeções de cortisona e de tratamentos de acupuntura. Em determinado momento, ele disse à sua então namorada Bridgette, hoje sua mulher, que talvez tivesse de abandonar o torneio.
E também havia a questão do clima. O tempo estava tão ruim que resultou em uma renovação dos apelos pela construção de uma cobertura retrátil na quadra central - um projeto que foi concluído este ano. A final de Sampras contra Rafter foi primeiro adiada pela chuva e depois interrompidas duas vezes pelo mesmo motivo. A partida demorou mais de seis horas para ser completada, e chegou próxima de uma suspensão porque a noite estava caindo.
Durante uma das interrupções causadas pela chuva, Sampras diz que solicitou ao seu pessoal que lhe aplicasse uma nova dose de cortisona, porque sentia que os efeitos da primeira dose estavam acabando, mas foi informado de que isso não seria possível.
"Eu soube então que teria de superar a dor pela força de vontade", disse Sampras. E foi o que ele fez, vencendo por três sets a um, em uma partida com dois tie-breakers nos sets iniciais. Sampras saiu de quadra com lágrimas nos olhos ao final da partida.
No ano seguinte, Sampras terminou eliminado na quarta rodada do torneio de Wimbledon por um tenista adolescente dotado de mais recursos que um canivete suíço. O jovem de 19 anos que conseguiu impor aquela zebra sísmica no torneio foi Federer, que era o 15° cabeça de chave na disputa e venceu o campeão do ano anterior por três sets a dois, em partida com dois tie-breakers. Federer até hoje diz aquela foi "a melhor vitória de minha vida".
Sampras viu em quadra naquele dia um jogador dotado do talento necessário a um dia superar seu recorde de vitórias.
"Mas eu não tinha como saber, àquela altura, se ele contava com tudo aquilo de que um vencedor precisa: o talento, a garra e a inteligência", afirma o norte-americano.
Em 2003, Federer venceu seu primeiro grande título, em Wimbledon. E por volta de 2006 Sampras já havia aceito o fato de que não deteria o recorde em número de torneios conquistados por 33 anos, como aconteceu com Emerson, o seu predecessor. O reino do norte-americano seria bem mais curto, ele sabia.
"Para conseguir números como os meus, eu sabia que seria preciso alguém que fosse não apenas um grande jogador mas que também se dispusesse a abrir mão de grande parte de sua vida - um tenista que comesse, respirasse e vivesse para o esporte", disse Sampras. "Roger está sempre disposto a se sacrificar para ser um grande campeão".
É claro que Sampras teria apreciado que seu recorde sobrevivesse a ele.
"Com certeza", ele diz. "Mas posso afirmar honestamente que não fico chateado por Roger estar a ponto de me superar. Ele se dedica muito ao esporte, e o faz com grande classe".
Sampras acrescenta que "eu venci 14 títulos, e isso representa 14 títulos a mais do que eu imaginava que seria capaz de vencer quando comecei a carreira".
Um dos aspectos de estar sozinho no topo de uma profissão costuma ser desconsiderado pela maioria dos observadores: o isolamento. "Era muito solitário para mim", diz Sampras.
Para conquistar o sucesso nos maiores torneios do tênis ele precisava maximizar sua energia e sua concentração. Sampras se lembra dos dias que passava enfurnado em sua casa alugada em Wimbledon Village, comendo as refeições preparadas especialmente por seu cozinheiro, assistindo a vídeos alugados e refletindo incessantemente sobre as partidas disputadas.
A solidão que era sua característica dominante nos dias em que ele dominava as quadras se tornou coisa do passado, substituída pelo caos organizado de uma vida que gira em torno de duas crianças. Sampras e Bridgette, uma atriz cujo foco dominante é a criação dos filhos, têm uma cama elástica montada no quintal, para dias como aquela sexta-feira, em que os meninos pareciam estar pulando sem parar. A manhã havia sido especialmente agitada, cheia de altos e baixos, de lágrimas, de conversas sérias.
"O verão provavelmente será muito longo", disse Sampras, rindo.
O tenista diz que seus filhos não se interessam por passar as férias de verão em acampamentos esportivos. Gostam de jogar tênis, mas apenas se o pai estiver do outro lado da rede. Também gostam de golfe, mas apenas se Sampras carregar os tacos. (E gostam especialmente das armadilhas de areia nas pistas de golfe, que usam como caixa de areia para suas brincadeiras.)
Sampras descreve os dois meninos como bastante caseiros. Ryan, com seus cabelos escuros e desalinhados e seus olhos castanhos, parece mais com o pai fisicamente. Christian parece ter herdado seu temperamento.
"Ele é um menino de hábitos rígidos", diz o tenista. "Não gosta muito de mudanças". Sampras acrescenta que "Christian é bem parecido comigo quando eu era criança. Um menino sensível e reservado".
Na casa, depois do almoço, Sampras e sua mulher tentam convencer Christian a ficar parado na cadeira por tempo suficiente para que um fotógrafo tire algumas fotos. Mas o menino escapou aos pais e, correndo casa afora, só de meias, gritou: "Não quero a minha foto no jornal".
O que parecia ser o retrato perfeito, de uma certa maneira.
Tradução de Paulo Migliacci
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