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 Longe das "distrações", tenista une vida acadêmica a treinos
03 de abril de 2010 09h31 atualizado às 10h03

Capitão da equipe brasileira na Copa Davis até 2009, Francisco Costa chamou de "grande burrada" a decisão de Henrique Cunha, tomada no início daquele ano, de deixar temporariamente o tênis profissional para jogar e estudar nos Estados Unidos.

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Naquele momento aos 18 anos e integrante do top 800 do ranking da ATP (Associação dos Tenistas Profissionais), o brasileiro atualmente nem pontos tem na lista, pois agora divide seu tempo entre as quadras e os estudos do curso de administração da Universidade Duke, uma das dez melhores dos EUA.

Ainda assim, vê grandes vantagens a partir da drástica mudança, que o tornou um tenista mais amadurecido e superior técnica e mentalmente, conforme apontou em entrevista exclusiva concedida por telefone ao Terra.

Sexto melhor juvenil do mundo em 2008, ano no qual foi campeão na grama do tradicional Torneio de Queen's, ele bateu recentemente o número um e o dois do circuito universitário americano (NCAA) e não descarta trancar a faculdade para voltar definitivamente ao profissionalismo.

Antes disso, precisa testar seu nível de tênis em torneios profissionais, o que pretende fazer entre maio e agosto no Brasil, e ir bem na final do NCAA, campeonato já vencido por Jimmy Connors (1971), John McEnroe (1978), Bob Bryan (1998) e do qual James Blake foi vice-campeão em 1999. Todos esses americanos tiveram muito sucesso na carreira após deixar a faculdade - história que Henrique Cunha tentará repetir.

Confira os principais trechos da entrevista:

Terra - Criticado por treinadores brasileiros, você partiu para a Universidade Duke em agosto passado. Sete meses depois, como está sendo a adaptação aos EUA?
Henrique Cunha - No começo foi difícil, eu não sabia como era, mas me adaptei muito bem. A parte mais dura foi a das aulas, mas nos primeiros meses já entrei na rotina e estou me sentindo praticamente em casa. Gosto dos treinos, das aulas, estou evoluindo, está sendo bem positivo.

Terra - Em 17 de março, você obteve um resultado muito expressivo, batendo o número um do circuito universitário americano, Steve Johnson, por 6/4 e 7/6 (7-4). Como foi essa vitória?
Henrique Cunha - Antes desse jogo eu já vinha jogando bem, duas semanas antes eu tinha ganhado do número dois (do ranking, John-Patrick Smith, da Universidade de Tennessee), e já tinha entrado entre os dez melhores (atualmente é o número nove). Pensei que era uma boa oportunidade, (pois) ainda não perdi jogando em casa. Na noite anterior eu estava um pouco ansioso por mostrar que estou indo bem. Depois consegui jogar o meu melhor.

Terra - Deve ter ocorrido uma grande festa após o triunfo sobre o melhor do NCAA. Antes de você, um tenista da Duke não batia um top 5 do ranking desde 2007. Como estava a torcida? Em grande fase, você já é bastante conhecido na universidade?
Henrique Cunha - Foi incrível, havia muita expectativa em mim. Apesar de freshman (novato), tenho resultados bastante expressivos e fiz o jogo que eu queria. O confronto estava empatado por 3 a 3, então se eu ganhasse, venceríamos o confronto; se perdesse, perderíamos. A pressão era muito grande, mas a torcida me ajudou bastante. (Depois) a repercussão foi muito boa, saí na primeira página do jornal da faculdade. A universidade é muito forte no basquete, porém no tênis isso é uma coisa que não acontece frequentemente (no ranking dessa modalidade, a Duke era apenas a 50ª colocada em 17 de março, enquanto que a adversária, a Universidade do Sul da Califórnia, era a terceira).

Terra - Quando você deixou momentaneamente o circuito da ATP, já havia obtido relativo sucesso para a sua idade. Em 2009, aos 18 anos, estava entre os 800 melhores do mundo, já havia ganhado um future e chegado à sexta posição do ranking juvenil. Por isso mesmo acabou bastante criticado por Chico Costa, então capitão da Copa Davis. Como recebeu isso?
Henrique Cunha - Não tenho problemas com ele, que, na verdade, já tinha me dito aquilo pessoalmente. Só achei errado ter falado à imprensa (em seu blog, o treinador chegou a classificar a atitude do jovem como uma "grande burrada"). Tomei a decisão quando vi o que era o college (o circuito de tênis dos EUA), a universidade e a estrutura daqui, sabendo que tinha escolhido o caminho certo dentro do que quero - não só prosperar com o tênis, em que a carreira é muito curta. Percebi que tinha muito mais a melhorar para ser um top 100 (da ATP), então vi que poderia evoluir aqui. Olho pra trás e vejo o quanto melhorei. Tive uma oportunidade de bolsa em uma das melhores faculdades dos Estados Unidos e, se quiser, em maio posso trancar para jogar (profissionalmente).

Terra - Então você pensa em retomar a carreira, repetindo histórias como as de James Blake, número quatro do mundo em 2006, que estudou em Harvard e virou profissional aos 19 anos, e John Isner, número 20 do mundo em março passado, que terminou a faculdade na Geórgia em 2007 e se tornou profissional só aos 22?
Henrique Cunha - Sem dúvida, vou me dar uma chance de fazer meu melhor. Não tenho metas de ser top 100, 50 ou 20, mas quando me sentir preparado vou sem medo. Neste ano meu grande objetivo é NCAA Tennis Championships, que reúne os 25 mais bem ranqueados em maio, na Geórgia. O último a ter ganhado esse torneio (Devin Britton) recebeu convite para o Aberto dos EUA e enfrentou (Roger) Federer (perdeu por 6/1, 6/3 e 7/5, mas depois trancou a faculdade e passou à ATP). Só pra ver a importância.

Terra - Atualmente você é top 10 do ranking universitário, com retrospecto de 22 vitórias e cinco derrotas em simples na temporada. Se você vence um torneios desses, significaria que você deveria trancar a faculdade e partir para o profissionalismo?
Henrique Cunha - Aí sim. Aí não teria mais jeito de não trancar. É um torneio muito difícil. (No entanto) entre maio e agosto vou viajar ao Brasil, nas férias. No começo devo descansar, mas depois quero competir. Posso pegar pontos (no ranking), só não posso receber prêmios em dinheiro. Há excelentes torneios no Brasil, e quero medir meu nível, ver como estou. Estou tendo alguns contatos (com organizadores) e quero jogar bastante - challengers e futures -, mesmo que tenha de passar pelo quali.

Terra - Tiago Fernandes ganhou o Aberto da Austrália neste ano, virou o terceiro colocado do ranking juvenil e acabou pressionado demais pela mídia. Depois, caiu precocemente no Banana Bowl e na Copa Gerdau e já vem sendo muito cobrado. Você acredita que ter ido para os EUA evitou que você encarasse a enorme pressão de ser o "novo Gustavo Kuerten"?
Henrique Cunha - Talvez tenham falado que fugi da pressão, mas é meio que uma ironia. Vim jogar como o número um da Duke, com arquibancada cheia, passando na tevê - depois se corrigiria: "na internet, é assim que meu pai e minha mãe vêem minhas partidas" -, contra os melhores jogadores. Aqui os técnicos contam meu ponto (dos confrontos) como ganho, sou o "brasileiro que foi 600 do mundo". Isso está me fortalecendo muito, estou sabendo como lidar com tudo isso.

Terra - O nadador Cesar Cielo foi estudar e competir nos EUA, pela Universidade de Auburn, antes de obter grandes resultados e se tornar campeão olímpico e bi mundial. Você procurou conhecer a história dele? Ou sua maior inspiração são mesmo os tenistas citados como Blake e Isner?
Henrique Cunha - Uso mais exemplos do tênis. Cada esporte é cada esporte. As universidades aqui têm estrutura para formar grandes atletas em várias modalidades, como basquete, natação; no atletismo você vê muitos medalhistas saindo de universidades. Com certeza estudei praticamente todos (os tenistas) - vi que Isner tinha sido vice-campeão no torneio da NCAA (em 2007), que Blake foi bem, que o indiano (Somdev) Devvarman ganhou (na verdade, foi bicampeão e, depois de formado, virou profissional e foi o número 116 do mundo em 2009).

Terra - Você disse que trocou seu tempo livre pelo estudo. Cielo chegou a dizer que ficava "trancado" nos EUA e só treinava - era até proibido de ter namorada - o que o ajudou a não pensar em fazer "besteiras" como se render à noite. Você acha que nesse sentido a mudança também foi proveitosa para você?
Henrique Cunha - No Brasil eu tinha muita distração. Na verdade não tenho muito tempo para sair, ir para as baladas. No tempo livre tenho de estudar, a universidade é muito rigorosa (só em casa, estuda de três a quatro horas a cada noite). Eu já era conhecido como disciplinado, mas com certeza agora estou mais ainda.

Terra - Costuma-se dizer que a diferença que separa o centésimo e o décimo do ranking da ATP é mais mental que técnica. Você concordar com isso? Uma boa formação como a que você está tendo, além de toda a bagagem ganha, morando sozinho, pode ajudar também nas quadras?
Henrique Cunha - Concordo e assino embaixo disso aí. Aqui estou amadurecendo muito, jogando por uma instituição, desenvolvendo também a minha educação. Isso pode fazer a diferença.

Terra - No Brasil você ficou conhecido por ter servido de "sparring" para Roger Federer um dia antes da final de Roland Garros de 2007, disputada contra Rafael Nadal. O suíço é seu maior ídolo no tênis, embora você seja canhoto como o espanhol?
Henrique Cunha - Na verdade treinei duas vezes com ele. Uma em Wimbledon, em 2008, e outra em Roland Garros, em 2007. Com certeza ele é meu ídolo, o maior jogador da história. Ter treinado com ele foi uma honra e uma sorte que tive, agradeço até hoje por isso. Agora tenho o sonho de jogar contra ele, mas também admiro o Nadal. Para mim ele é um fenômeno, sua força mental é incrível. Por ser canhoto, outro tenista de que gosto também é o (espanhol Fernando) Verdasco - tento me inspirar, acho que meu jogo é parecido com o dele. Ser canhoto com certeza é uma vantagem, se você tem um bom saque.

Terra - Mas então você não deu muita sorte para Federer. Nesses dois Grand Slams ele seria batido por Nadal na final.
Henrique Cunha - É... acabou derrotado pelo Nadal. Foi curioso que em Roland Garros ele me chamou para aquecê-lo também no dia da final, mas eu tinha um vôo para Queen's marcado e o técnico que estava me acompanhando pela ITF (Federação Internacional de Tênis, que rege a categoria juvenil) não deixou. Até fiquei irritado, disse que mudaria o voo, mas tive de recusar. (No treino) pude ver o tanto que ele é bom - a bola e o slice são de outro tipo. Obviamente é muito superior a mim, mas percebi que não é nada de outro mundo. Eu estava treinando com o melhor jogador de tênis da história e conseguia treinar bem, dar o meu melhor. Não é um extraterrestre.

Você treinou com Federer em Wimbledon, na grama, piso no qual conquistou um importante título como juvenil, em Queen's. Como um brasileiro tão jovem conseguiu se adaptar a um piso geralmente muito ingrato ao tênis do País?
Henrique Cunha - Desde pequeno sempre aprendi a jogar mais nas quadras rápidas. Eu treinava nesse piso e meu estilo passou a se adaptar. Quando morei nos EUA (em 2008, a princípio para treinar em uma academia) acabei evoluindo. Agora, diferentemente da maioria dos brasileiros, tenho algumas dificuldades no saibro.

Redação Terra