Javier Marti é um convidado polêmico desta edição do Aberto do Brasil
Foto: Gaspar Nóbrega/Inovafoto/Divulgação
- Henrique Moretti
- Direto de São Paulo
Após 11 anos na Costa do Sauípe, o Aberto do Brasil estreia em São Paulo igualando uma marca negativa: com Thomaz Bellucci, João "Feijão" Souza e Ricardo Mello, o País só terá três jogadores na chave principal. Isso acontece devido a uma polêmica atitude da Koch Tavares, promotora do torneio, que pela primeira vez na história só distribuiu convites (wild cards) a atletas estrangeiros: o chileno Fernando González e os espanhóis Nicolás Almagro e Javier Martí.
Em apenas uma edição o Brasil teve tão poucos representantes. Em 2008, Marcos Daniel, Thomaz Bellucci e Gustavo Kurten só entraram em quadra graças a convites recebidos dos organizadores, visto que ocupavam respectivamente apenas as posições 108, 181 e 677 do ranking mundial, insuficientes para garantir uma vaga na chave do evento.
Em 2012, o fato de os principais jogadores do País estarem em um lugar melhor na lista - Bellucci é o 38º colocado, Feijão o 97º e Mello o 123º (mas era top 100 até semana passada) - não ajudou a aumentar a representatividade do Brasil no torneio. O destino dos convites explica o paradoxo, analisado por Luiz Procopio Carvalho, gerente de esportes da Koch Tavares, promotora do evento.
"Foi uma consequência de um projeto traçado para o Brasil Open em São Paulo. Obviamente a gente teve que investir muito mais para trazer jogadores de alto nível por causa do público de São Paulo, muito mais exigente que o de Sauípe", disse Carvalho ao Terra.
Em torneios de nível ATP 250 (o número refere aos pontos no ranking ganhos pelo campeão) como o paulistano, os organizadores têm direito a distribuir três convites. Desde 2001, sempre pelo menos dois brasileiros eram agraciados, mas a situação mudou. Antes, apenas dois estrangeiros haviam sido premiados em toda a história do evento: o espanhol Álex Corretja em 2005 e o argentino Guillermo Cañas em 2007, ambos ex-top 10.
Dois dos premiados para a edição 2012 têm relevância no circuito internacional - Almagro, número 11 do mundo, mas que não havia feito a inscrição na data regulamentar para defender o bicampeonato e por isso precisou do wild card; e González, ex-número cinco do mundo e atual 266, que já anunciou a aposentadoria para o mês de março.
O maior motivo de polêmica é quanto a Martí, que aos 20 anos ocupa a 184ª posição do ranking e jamais passou da 180ª. Segundo a Koch Tavares, o convite veio devido a uma antiga parceria com a Octagon, empresa de marketing esportivo que gerencia a carreira do jovem e de outros tenistas como o sueco Robin Soderling, o também espanhol Juan Carlos Ferrero e a eslovaca Daniela Hantuchova.
Martí tirou a vaga de mais brasileiros e deixou insatisfeito, por exemplo, Rogério Dutra da Silva, o Rogerinho, quarto melhor canarinho na ATP (109º posto), que classificou a decisão como uma "pena".
"Anunciamos primeiro o González (em janeiro) e depois de uma semana o Almagro ligou para mim dizendo que gostaria de jogar. Ficamos nessa situação difícil", explicou Carvalho.
"Infelizmente alguns criticaram, mas como promotora acreditamos que seja algo bem acertado pela própria venda de ingresso - teremos uma quadra lotada para o Almagro", completou, citando que até esta segunda haviam sido vendidos 22 mil ingressos para o torneio, que ocorre de 13 a 19 de fevereiro.
Enquanto os convites de Almagro e González foram anunciados com pompa pelo Brasil Open, a entrada de Martí não foi citada nem sequer em uma notícia separada pelo site do torneio. O jovem é considerado uma das promessas da Espanha, onde é comparado a Rafael Nadal por ter sido campeão mundial em níveis inferiores quando tinha 11 anos.
Em 2011, a promessa também já havia recebido wild card "misteriosos" para os ATPs 250 de Kitzbuhel, na Áustria, e de s-Hertogenbosch, na Holanda - não tão misteriosos, pois a Octagon participa da organização de ambos os eventos, assim como ocorre em São Paulo.
"Tentamos até o último momento negociar a liberação do wild card da Octagon, e o Rogerinho foi realmente uma pena", analisou Carvalho. Em meio à polêmica, Martí fez a partida de abertura do Brasil Open de 2012 nesta segunda e mostrou serviço, batendo no Ginásio do Ibirapuera o português Frederico Gil, número 87 do planeta.
Fracasso do Brasil no qualificatório também explica marca negativa:
Apesar das reclamações de Rogerinho, é verdade também que o recorde negativo foi igualado também em função do mau desempenho dos brasileiros no torneio qualificatório na capital paulista. Nenhum dos nove inscritos no quali conseguiu avançar à chave principal, incluindo Dutra da Silva, que era o cabeça de chave três e perdeu na estreia para o argentino Martin Alund (208 do mundo) por 6/3, 3/6 e 6/3.
"Acho que a gente teve bastante jogador no quali. O Rogerinho poderia ter entrado (na chave) mas pô: poderia ter ganhado o quali também", analisou o presidente da Confederação Brasileira de Tênis (CBT), Jorge Lacerda da Rosa. "Se não ganhar o quali não tem por que estar na chave principal. Não é dando presente que o cara vai se desenvolver".
Entre os brasileiros, apenas Bruno Sant'Anna e André Ghem conseguiram vencer alguma partida no qualifying, tendo perdido na segunda rodada. Júlio Silva, Tiago Lopes, Thiago Alves, Caio Zampieri, Guilherme Clezar e Augusto Laranja caíram no primeiro jogo - os dois últimos, assim como Sant'Anna, haviam recebido wild cards para a chave.
"Gostaria que houvesse mais brasileiros, mas acho que tem que compreender e respeitar, a Koch Tavares privilegiou convites para jogadores de forte expressão", comentou o capitão do Brasil na Copa Davis, João Zwetsch.
"Não vejo nada de espantoso. Acho que esse qualifying realmente não foi o esperado. Não digo triste porque seria muito forte, mas foi uma coisa que realmente poderia ter sido melhor".
É a primeira vez desde 2008 que nenhum brasileiro conseguiu superar o evento pré-classificatório do Brasil Open. Em 2001, 2003, 2007, 2009, 2010 e 2011 pelo menos um representante do País havia chegado à chave como qualifier. Nos últimos três anos, o próprio Rogerinho, medalhista de prata nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, havia trilhado esse caminho.
Confira todos os brasileiros que já participaram do Brasil Open e os convidados da organização:
2001 - nove brasileiros: Gustavo Kuerten, Fernando Meligeni, André Sá, Alexandre Simoni, Ricardo Mello (qualifier), Francisco Costa (qualifier), Thiago Alves (convidado), Jaime Oncins (convidado) e Flávio Saretta (convidado)
2002 - oito brasileiros: Fernando Meligeni, Gustavo Kuerten, André Sá, Flávio Saretta, Alexandre Simoni, Júlio Silva (convidado), Ricardo Mello (convidado) e Daniel Melo (convidado)
2003 - sete brasileiros: Gustavo Kuerten, Flávio Saretta, Ricardo Mello, Júlio Silva (qualifier), André Sá (convidado), Marcos Daniel (convidado) e Franco Ferreiro (convidado)
2004 - cinco brasileiros: Gustavo Kuerten, Flávio Saretta, Franco Ferreiro (convidado), Ricardo Mello (convidado) e Pedro Braga (convidado)
2005 - quatro brasileiros: Ricardo Mello, Flávio Saretta, André Sá (convidado) e Júlio Silva (convidado) - espanhol Alex Corretja também recebeu convite
2006 - seis brasileiros: Marcos Daniel, Flávio Saretta, Gustavo Kuerten (ranking protegido*), Ricardo Mello (convidado), André Ghem (convidado) e André Sá (convidado)
2007 - cinco brasileiros: Flávio Saretta, Thiago Alves, Marcos Daniel (qualfier), Rogério Dutra da Silva (convidado) e Gustavo Kuerten (convidado) - argentino Guillermo Cañas também recebeu convite
2008 - três brasileiros: Marcos Daniel, Thomaz Bellucci e Gustavo Kurten (todos convidados)
2009 - seis brasileiros: Thomaz Bellucci, Rogério Dutra da Silva (qualfier), Caio Zampieri (qualifier), Ricardo Hocevar (convidado), Flávio Saretta (convidado) e Thiago Alves (convidado)
2010 - sete brasileiros: Thomaz Bellucci, Marcos Daniel, João "Feijão" Souza (special exempt**), Rogério Dutra da Silva (qualfier), Ricardo Hocevar (convidado), Thiago Alves (convidado) e Ricardo Mello (convidado)
2011 - sete brasileiros: Thomaz Bellucci, Ricardo Mello, André Ghem (qualifier), Rogério Dutra da Silva (qualifier), Guilherme Clezar (convidado), João "Feijão" Souza (convidado) e Fernando Romboli (convidado)
* retornava de lesão e usava recurso que assegura ao jogador uma média de ranking, calculada em cima dos três primeiros meses de seu afastamento por contusão
** beneficiado pelo special exempt por ter sido semifinalista do ATP 250 de Santiago na semana anterior ao Brasil Open, não podendo assim disputar o qualificatório do evento brasileiro
- Terra




