Cabeça 3 no Brasil, Verdasco já viu "várias vezes" a derrota em cinco horas para Nadal na Austrália, em 2009
Foto: Edson Lopes Jr./Terra
- Henrique Moretti
- Direto de São Paulo
Fernando Verdasco responde perguntas como se isso fizesse parte do trabalho de um jogador de tênis. E realmente o faz. Ele não recebe a reportagem do Terra para uma entrevista exclusiva durante o Aberto do Brasil com um sorriso no rosto nem se prontifica a um aperto de mãos; recebe-a como um adversário que lhe dará trabalho do outro lado da rede.
Sentado em uma cadeira e entretido mexendo em seu iPhone, o tenista também tem fair play e não se importa quando o repórter percebe que esqueceu o gravador durante a primeira resposta. Este volta e desta vez há outro problema: o gravador está com a memória cheia. Passa-se a vez para outro jornalista, enquanto que Verdasco não muda a expressão.
O espanhol demora em cada resposta. O chileno Fernando González já aguarda para entrar quando Verdasco ainda está na sala de entrevista coletiva. Chega novamente a vez do Terra. Muda-se a sala, desta vez o equipamento está pronto, e um pedido de desculpas pelo transtorno é aceito pelo atleta que não tira os olhos do iPhone.
Verdasco é ainda mais sério para responder as perguntas. Ele gasta quase dois minutos em cada uma delas. Conta que já viu "várias vezes" a partida mais marcante de sua carreira, contra Rafael Nadal na semifinal do Aberto da Austrália de 2009 - que durou cinco horas e 14 minutos! - e só não comenta uma questão, sobre a ex-namorada, a também tenista Ana Ivanovic: "não falo sobre vida pessoal".
Nesse momento, já era a hora de se despedir, e o assessor da ATP (Associação dos Tenistas Profissionais) dá a entrevista por encerrada. A concentração de Verdasco, porém, indicaria que ele falaria atentamente sobre tênis por mais cinco horas e 14 minutos.
Se levar a sério a carreira tanto como o faz com as entrevistas, o espanhol fatalmente cumprirá seu objetivo de retornar ao top 10, lugar de onde saiu para a atual 27ª posição do ranking, a sua pior desde maio de 2008. Ele espera que o começo da recuperação seja no saibro de São Paulo, onde enfrenta o compatriota Albert Ramos pelas quartas de final por volta das 14h (de Brasília) desta sexta-feira.
Confira a entrevista exclusiva com Fernando Verdasco:
Terra: Você já leu a autobiografia de Rafael Nadal?
Fernando Verdasco: Não.
Terra: Pergunto isso porque Nadal diz no livro que, se você tivesse aguentado um game a mais na semifinal do Aberto da Austrália de 2009, não tivesse cometido a dupla-falta no match-point, provavelmente teria ganhado pois ele não suportava mais jogar (Nadal ganhou por 3 sets a 2, parciais de 6/7 (4-7), 6/4, 7/6 (7-2), 6/7 (1-7) e 6-4, e rumou para bater o suíço Roger Federer na decisão).
Fernando Verdasco: Foi uma partida muito importante, foi muito especial. Quanto ao que Nadal disse, teríamos que ter visto, mas sinceramente não acredito. Fisicamente ele é muito forte.
Terra: Eu estive revendo o final daquela partida. Você chegou a ter 0-30 quando Nadal sacava em 4/4 no quinto set e cometeu dois erros não forçados. Você já viu o replay daquele jogo?
Fernando Verdasco: Vi muitas vezes, sim. Faz já...
Terra: Cinco horas?
Fernando Verdasco: Sim, vi várias vezes. Faz vários meses que não o vejo, mas já vi várias vezes e sei dos erros que cometi, das coisas boas que fiz. Foi uma partida muito longa, e realmente creio que perdi contra um Nadal que estava praticamente no melhor momento de forma de sua carreira, não? Ou seja, realmente foi uma partida incrível e que se ele não tivesse jogado em um nível tão incrível o tempo todo, como eu estava jogando poderia ter ganhado.
Terra: Neste ano Novak Djokovic bateu Nadal em quase seis horas na partida que se tornou a mais longa da história do Aberto da Austrália (o sérvio ganhou o título ao fazer 5/7, 6/4, 6/2, 6/7 (5-7) e 7/5 em cinco horas e 53 minutos). Você ficou chateado por ter perdido o recorde?
Fernando Verdasco: Não, é um recorde que não me dá nenhum título, não me faz ganhar nada, ou seja, realmente é um recorde que está aí, mas que realmente não me dá nada de benefício. Creio que dá muito mais benefício ganhar a partida que o recorde do tempo.
Neste momento, um som no iPhone indica que Verdasco provavelmente recebeu uma mensagem
Terra: Aquela campanha na Austrália lançou sua carreira. No mesmo ano você foi número nove do mundo, mas agora caiu de rendimento e é o 27. Como conseguiu melhorar o nível e agora caiu um pouco?
Fernando Verdasco: São coisas da vida, da carreira de cada jogador. Às vezes você sobe, às vezes cai, às vezes se mantém. No ano passado tive alguns problemas físicos com meu tornozelo no princípio do ano, depois com minhas costas. Tampouco foi um ano muito fácil, e fui a vários torneios sem estar 100% fisicamente. E bom: se notou um pouco que comecei a perder confiança e comecei a perder partidas que não vinha perdendo nos anos anteriores. Estou tentando me recuperar e espero que este ano seja bom e que possa voltar a me aproximar ou a terminar o ano entre os dez primeiros e colocar um pouco de lado o ano passado em que terminei como o 24. Mas realmente ser o 24 do mundo não está mal - o que acontece é que se compara quando termina oito ou nove está pior. Realmente este ano lutarei por acabar melhor.
Terra: Você só competiu no Brasil em 2004. O que fez você voltar a esta temporada sul-americana de saibro em vez de jogar torneios em quadra rápida como aconteceu nos anos anteriores?
Fernando Verdasco: Pensei que fosse uma temporada para tentar vir, jogar bem, conseguir pontos (no ranking). No ano passado fui a Acapulco, mas em vez de disputar Costa do Sauípe (onde o Brasil Open era realizado de 2001 a 2011) e Buenos Aires joguei em San José e Memphis - também porque em 2010 em San José eu tinha ganhado o torneio e me senti um pouco obrigado a defender o título. Pensei que fosse um momento oportuno para jogar no saibro, gosto muito desta gira e quando vim em 2004 foi muito bom. Tinha vontade de voltar a jogar aqui.
Terra: Uma última pergunta, sobre Ana Ivanovic: como era ser o namorado de uma das tenistas mais famosas do mundo? Você já jogou um set contra ela?
Fernando Verdasco: Nunca joguei nenhum set contra ela, e de minha vida privada e de minhas relações privadas nunca falo, sabe? Esta pergunta não tenho por que respondê-la porque nunca as respondo.
- Terra



