- Christopher Clarey
- Do "New York Times"
Cinco semanas depois de uma cirurgia no joelho direito, o esquiador croata Ivica Kostelic se sentiu bem o bastante para disputar duas provas seletivas de slalom e sair vitorioso, no domingo.
Mas receber medalhas depois de cirurgias de joelho já é uma tradição na família Kostelic. O próprio Ivica já havia passado pela experiência, e sua irmã mais nova, Janica, também passou por isso antes de deixar o esporte, em 2006, com mais medalhas de ouro (quatro) do que qualquer outra esquiadora alpina na história das Olimpíadas.
"Creio que a persistência é a maior das virtudes", disse Ivica.
Ivica ainda não conquistou uma vitória olímpica, e precisará esquiar muito antes de reduzir esse diferencial familiar. Mas sua mais recente cirurgia, um procedimento artroscópico em 13 de dezembro, significa que ele está reduzindo a distância em termos cirúrgicos.
Janica teve 11 cirurgias de joelho, sérias e menores; Ivica agora chegou a oito, sete das quais no joelho direito. Três dessas grandes cirurgias vieram antes que ele se tornasse sério candidato a vitória na Copa do Mundo.
"Todo mundo dizia que era melhor me esquecer, mas eu sabia que tinha de continuar em frente, como Abraham Lincoln", disse Ivica, usando uma referência história norte-americana, para facilitar o meu trabalho como jornalista.
Ivica gosta de História e de filosofia. Ele cita Friedrich Nietzsche e não hesita muito em falar com franqueza, quer seja em seu croata natal, em alemão ou em inglês.
No domingo, depois de vencer sua primeira prova de Copa do Mundo da temporada, ele aproveitou para criticar o hábito de congelar as pistas da Copa do Mundo, e fez suas principais críticas ao atual modelo de competição combinada adotado nos eventos da Copa do Mundo. Na opinião de Kostelic, o formato dá aos esquiadores nas categorias downhill vantagem escancarada sobre seus colegas do slalom.
O modelo clássico de um evento combinado envolve duas provas de slalom e uma de velocidade, mas era visto como favorável demais aos praticantes de slalom. O modelo combinado envolve apenas uma prova curta de downhill e uma de slalom, e foi vencido por Bode Miller, na sexta-feira. Kostelic acredita que uma prova de downhill de quase dois minutos e uma prova de slalom de apenas 45 segundos seja uma estrutura injusta.
"Digamos que eu e Usain Bolt estivéssemos disputando uma corrida, e ele corresse 100 metros enquanto eu corria 60", disse Kostelic. "Eu provavelmente o teria derrotado, mas isso significaria que sou melhor corredor que Bolt?"
"É como cuspir na cara dos esquiadores de slalom", ele disse, pressionando por um retorno à fórmula clássica.
No passado restrito a eventos técnicos devido à sua sucessão de lesões, Kostelic, 30 anos, expandiu seu repertório nas últimas temporadas, e marcou pontos em múltiplas disciplinas, chegando a esquiar até mesmo na mais assustadora das pistas mundiais de downhill, em Kitzbuhel, Áustria. O circuito da Copa do Mundo volta a Kitzbuhel na semana que vem.
"Fiquei surpreso porque meu medo era muito grande; e um esquiador com mais de 20 anos de experiência no esporte não se deixa intimidar facilmente por qualquer coisa", disse Kostelic. "Você passa o tempo todo dizendo a você mesmo que aquela pista não é tão ruim assim, que não é preciso ter medo. Tudo bem, todo mundo disputa a mesma prova. Mas quando você se posiciona para a largada, fica olhando diferente para o cara que está ao seu lado."
Kostelic certamente vem sendo examinado de perto pelos competidores, desde que retornou ao circuito, este mês.
"É espantoso o quanto ele se recupera rápido", disse Ted Ligety, um rival norte-americano do croata que terminou em oitavo lugar a prova de slalom do domingo. "Ninguém imagina que haja um atleta capaz de se recuperar de uma cirurgia artroscópica em duas semanas. É algo de fenomenal. Normalmente, o programa norte-americano de uma cirurgia como essa requer pelo menos um mês de recuperação. Ele teve muitos altos e baixos em suas carreiras, mas sempre contou com uma técnica superforte".
Depois de ferir seu joelho em Val d¿Isere, em 11 de dezembro, Kostelic passou por uma cirurgia dois dias depois em Basileia, Suíça, para remover parte de seu menisco. Ele voltou ao esqui em 26 de dezembro e já estava treinando em plena velocidade no dia 30 do mesmo mês.
"Estou um pouco surpreso por ter voltado e conseguido vencer tão rápido, mas acho que as condições da pista hoje me eram bastante favoráveis", disse. "Uma espécie de neve de primavera, bem quente, e é preciso esquiar com muito sentimento. Eu gosto disso."
A neve de primavera e as temperaturas amenas podem ressurgir como parte da experiência olímpica em Vancouver, no mês que vem. O objetivo de Kostelic na temporada é uma medalha nas provas disputadas na Whistler Mountain. Ele já tem uma medalha de prata, depois de uma derrota diante de Ligety em um evento combinado na olimpíada de 2006. Mas aparentemente o evento em que ele venha a conquistar o prêmio não o preocupa muito.
"Tanto faz", ele brinca. "Curling..."
Não importa qual seja o resultado, Janica planeja estar em Vancouver com seu irmão, da mesma forma que o acompanhou a Wengen, erguendo os dois braços em triunfo quando ele conseguiu superar Andre Myhrer, da Suécia, na segunda bateria, vencendo por 0s29, com tempo somado de 1min40s34.
"É claro que me orgulho dele. Sempre tive muito orgulho dele", ela afirma.
Janica, 28 anos, não levava muito jeito de esquiadora aposentada, apoiada sobre os bastões de seu esqui e usando o uniforme da equipe olímpica croata, mas suas atenções não estavam totalmente dedicadas ao esporte no final de semana prolongado em Wengen. Ela e o namorado recente se abraçavam e beijavam repetidamente na área de chegada, diante da plateia e das câmeras de televisão, durante a prova combinada de sexta e as disputas de downhill no sábado.
No domingo, as atenção dela se dispersou de novo durante uma entrevista coletiva de Ivica. Enquanto ele respondia perguntas em uma sala de aula adaptada como centro de imprensa, Janica brincava nos fundos, fazendo contas elementares de matemática no quadro negro.
"Quando estou disputando uma prova, ela está sempre comigo", disse Ivica. "Não é que seja minha treinadora, ou algo parecido. Ela me acompanha o mais das vezes para se divertir, esquiar de graça e assistir às provas, e me ajuda, claro, com uma ou duas dicas quando preciso."
Os dois já passaram por muito mais experiências do que é comum entre quaisquer irmãos. O pai de ambos, o exigente Ante, era um antigo jogador de handebol decidido a transformar os filhos em campeões de esqui, em uma época na qual a Croácia e os demais países da antiga Iugoslávia continuavam a viver um momento tumultuado.
Eles dormiam em carros, perto das estações de esqui, porque não tinham dinheiro suficiente para um hotel. Ambos treinavam não apenas muito como de forma muito exigente, correndo por mais de 1,4 mil portões ao dia, mais que o triplo dos demais grandes esquiadores.
Os corpos de ambos claramente tiveram um preço a pagar por tudo isso, mas ao saírem juntos da sala de entrevistas nas pitorescas ruas de pedestres de Wengen, os dois estavam rindo, e não mancando.
Tradução de: Paulo Migliacci

- The New York Times


Assista agora »
Assista agora »

