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Futebol

Especialista alerta para atos de vingança de torcedores no futebol

Luciano Belford/Frame Photo/Gazeta Press

Heloísa Reis, que estuda a violência das torcidas de futebol, diz que adotar torcida única em jogos não inibe as brigas

17 fev 2017
12h11
atualizado às 12h18
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Professora titular de Sociologia do Esporte da Unicamp, Heloísa Reis tem vasto conhecimento sobre temas relacionados à violência entre torcidas de futebol. Nesta entrevista ao Terra , ela fala sobre as medidas que atenuariam o problema e critica a ideia de extinção das torcidas organizadas.

A partir de dados que reúne há 22 anos, a professora revela uma realidade alarmante: as torcidas se vingam de colegas de grupo assassinados em confrontos com rivais.

Professora da Unicamp diz que mortes em brigas de torcidas, como a ocorrida recentemente no clássico Botafogo x Flamengo, são normalmente vingadas em outros episódios
Professora da Unicamp diz que mortes em brigas de torcidas, como a ocorrida recentemente no clássico Botafogo x Flamengo, são normalmente vingadas em outros episódios
Foto: Armando Paiva/Agif/Gazeta Press

Heloísa está na Alemanha, participando de uma pesquisa sobre prevenção à violência no futebol e projetos sócio-educativos em curso na Europa, voltados para torcedores que se envolvem em distúrbios.

Autora de dois livros – ‘Futebol e Sociedade’ (2006), pela Liber Livros, e ‘Futebol e Violência’ (2006), pela Editora Autores Associados/FAPESP -, Heloísa Reis atuou por 12 anos assessorando os Ministérios da Justiça e do Esporte (de 2003 a 2015) para tratar do assunto e pôr em prática algumas ações que apontavam novos caminhos para o problema. Confira abaixo a entrevista:

O MP-RJ entrou com ação na Justiça pedindo que os clássicos no Rio sejam disputados com torcida única. Isso foi feito após jogo recente entre Flamengo e Botafogo, no Engenhão, no qual um torcedor morreu e outros ficaram feridos em distúrbios fora do estádio. Como a senhora analisa essa medida?

HELOÍSA – O Brasil parece o país da piada pronta. Não vai resolver nada. Os que provocam os distúrbios vão continuar agindo, talvez um pouco mais distante dos locais dos jogos. E não menos grave é a reação que essas brigas desencadeiam. O grupo que saiu derrotado, vai querer se vingar.

Então é possível que a morte de um botafoguense naquele dia seja vingada?

HELOÍSA – Muito provável. O histórico dos casos de morte em conflitos de torcidas no futebol brasileiro demonstra que a vingança ocorre. O que pode ser feito, no exemplo citado, é um trabalho sério de prevenção, durante anos, quando dos jogos entre Flamengo e Botafogo.

Que medidas poderiam evitar, ou atenuar, os confrontos entre torcedores rivais?

HELOÍSA – Trabalhar com a juventude, investir em prevenção, desenvolver com esses grupos projetos sócio-educativos financiados pelo governo brasileiro e dirigidos pelas universidades. São jovens abandonados há muito tempo. Não existem, por exemplo, políticas voltadas para o lazer que os atendam. Claro que também é preciso a repressão, se o caso exigir, nos dias de grandes jogos, mas com agentes públicos preparados para lidar com torcidas.

A senhora é a favor do fim das torcidas organizadas?

HELOÍSA – Também não resolve. Ao contrário, piora. Quando não se tem grupos uniformizados, fica mais difícil a identificação. Essas torcidas têm estrutura física, sede própria e é um direito de todo cidadão se organizar.

Professora titular de Sociologia do Esporte da Unicamp, Heloísa Reis tem vasto conhecimento sobre temas relacionados à violência entre torcidas de futebol.
Professora titular de Sociologia do Esporte da Unicamp, Heloísa Reis tem vasto conhecimento sobre temas relacionados à violência entre torcidas de futebol.
Foto: Divulgação/Unicamp

A liberação de bebida alcoólica nos estádios agrava os conflitos entre torcedores?

HELOÍSA – Desenvolvi uma pesquisa que mostra que o consumo do torcedor de futebol no Brasil é abusivo, bem acima da média dos que costumam ingerir bebida alcoólica. É uma situação de risco, uma epidemia. Acho que deveria ser mantida a proibição por mais tempo. Temos de pensar na saúde dessas pessoas. A bebida é uma droga lícita com potencial para criar graves problemas sociais.

Mesmo quando havia a proibição, os torcedores só entravam no estádio na hora do jogo. Ficavam consumindo do lado de fora...

HELOÍSA – Isso também por causa dos preços abusivos de bebida e comida dentro dos estádios. Mas é uma tradição no Brasil que as torcidas organizadas só entrem quando faltam cerca de 10 minutos para o início da partida

O caso em que torcedores do Corinthians foram presos em outubro, no Rio, por causa de uma briga num jogo com o Flamengo, no Maracanã, pode servir de exemplo para quem provoca atos de violência no futebol?

HELOÍSA – Aquilo foi uma abuso. Prenderam os envolvidos nas brigas e alguns inocentes, que perderam o trabalho e deixaram suas famílias desorientadas. Essas reações geram mais ódio e descrença no Estado. Eu li a declaração atribuída a um juiz, na qual se dizia que se os torcedores fossem soltos, a Justiça ficaria desacreditada. Os detidos ficaram expostos como se estivessem num campo de concentração. As câmeras teriam de identificar um a um. E a Polícia teria de ser questionada também, pela forma como agiu. Tudo aquilo é combustível para novas brigas. Os atingidos vão querer se vingar. São relações eternas de ódio e vingança.

Qual é o perfil desses torcedores que se envolvem em distúrbios com frequência?

HELOÍSA – Não existe um estudo disso no Brasil. Eu proponho isso há anos. Costumo denominar os mais violentos como hooligans, que guardam semelhanças com o que faziam e fazem os hooligans na Inglaterra

Por que eles vão aos jogos para brigar?

HELOÍSA – Porque isso lhes dá prazer. Como dizem alguns – “dá um barato”. Nas ações, eles têm uma descarga de adrenalina semelhante à do consumo de droga pesada. Há um traço comum entre eles, que é um modelo de masculinidade que se afirma dessa forma. Para muitos, esses atos de violência são mais prazerosos que o sexo e essa questão já foi abordada por pesquisadores britânicos. Além do mais, o medo de ser preso ou de apanhar dos rivais funciona como atrativo.

Como foi sua experiência como assessora especial dos Ministérios da Justiça e do Esporte para lidar com a questão da violência entre torcidas?

HELOÍSA – Foi um período importante, com avanços. Trabalhamos pontualmente com três metas - dialogar com líderes de torcidas organizadas, conscientizá-los de que os confrontos feriam a legitimidade e que era necessário que eles trabalhassem em conjunto com o Estado para reduzir essa violência. Posso assegurar que as lideranças dessas torcidas não têm comprometimento com os casos de agressões que ocorrem dentro e fora dos estádios. Em geral, eles não têm controle sobre o grupo que comandam.

Fonte: Especial para Terra

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