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Com erros, críticas, acertos e festas, Guadalajara dá adeus ao Pan

31 out 2011
03h19
atualizado às 03h45
Emanuel Colombari
Direto de Guadalajara (México)

O México encerrou neste domingo a 16ª edição dos Jogos Pan-Americanos, realizados em Guadalajara. A cidade tem algumas características peculiares, e a receptividade festiva aos visitantes - brasileiros em especial - costuma ser uma delas. No entanto, mesmo a boa vontade não evitou que algumas falhas do Comitê Organizador dos Jogos Pan-Americanos (Copag) fossem notadas ao longo das últimas duas semanas.

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Em muitos pontos, a organização acertou. Em apresentação na manhã deste domingo, o chefe de missão do Brasil no Pan, Bernard Rajzman, viu energia de Guadalajara para solucionar questões apontadas - muitas vezes em cima da hora - por atletas e treinadores. "O que compensou na prática, com fila no restaurante e problema no ônibus, é o estilo deles, muito parecido com o dos brasileiros. Eles têm um 'jeitinho brasileiro' para dar uma arrumada. Deram uma cativada. Além de ser um povo fantástico, na prática acabou dando tudo muito certo. Acho que nossa delegação sai muito feliz", afirmou o ex-jogador de vôlei.

Entre erros e acertos, o Copag fechou o Pan de 2011 com um balanço positivo. Segundo Mário Vázquez Raña, presidente da Organização Desportiva Pan-Americana (Odepa), o evento foi o mais organizado da história, superando a edição do Rio de Janeiro em 2007. Exageros ou não, relembre fatos que confirmam (ou não) a opinião do dirigente.

1. Estádio Telmex de Atletismo
Nenhuma das sedes dos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara deu tanto trabalho aos organizadores como o Estádio de Atletismo. Com obras bastante atrasadas, a arena chegou às vésperas da abertura do Pan ainda incompleta. No dia 11 de outubro (três dias antes da cerimônia de abertura), o local finalmente recebeu a homologação da Federação Internacional de Associações de Atletismo (IAAF, em inglês), ainda em construção. Detalhe: em meio a uma assembleia da Odepa, na qual uma assistente de palco entregou o documento a Carlos Andrade Garín, diretor executivo do Copag. O órgão se beneficiou do calendário do Pan, e entregou o estádio antes do dia 23, quando começaram as provas de atletismo. Em meio às disputas, o cheiro de tinta nas dependências do estádio era destacado.

2. Comida
A culinária mexicana causou alguma dor de cabeça à organização do Pan. Semanas antes do início da competição, a Agência Mundial Antidoping (Wada, em inglês) emitiu um alerta a respeita da carne mexicana, que estaria contaminada com a substância clembuterol - a mesma que fez com que jogadores da seleção mexicana de futebol fossem pegos em exames. O Copag não teve dúvidas: iniciou um controle sanitário e restringiu as regiões fornecedoras de carne para os Jogos Pan-Americanos. Antes da cerimônia de abertura, Mario Vázquez Raña afirmou ter provado e aprovado uma porção de carne igual à que seria servida na Vila Pan-Americana. Ao que tudo indica, as medidas foram de extrema eficiência: até o último dia de competições, poucos casos de doping foram registrados.

3. Trânsito
O primeiro plano da organização dos Jogos Pan-Americanos era oferecer uma faixa das principais avenidas de Guadalajara, para que carros credenciados pudessem circular com mais velocidade. Nos primeiros dias, os chamados "corredores pan-americanos" não funcionaram, e os motoristas locais continuavam usando o espaço. Resultado: eram multados. Diante da rejeição da população, o Copag pediu a colaboração dos moradores, que seguiram não dando muita atenção. No fim, a medida foi praticamente abandonada. Mesmo assim, atletas, voluntários e jornalistas contaram com uma eficiente frota de táxis e com os ônibus fornecidos pelos organizadores para que pudessem chegar a locais de prova, à Vila Pan-Americana ou ao centro de imprensa.

4. Voluntários
Cerca de 37 mil pessoas se candidataram às 7,6 mil vagas de voluntários nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara. Todos eles se registraram, foram entrevistados, fizeram provas de capacitação (online e especializada) e confirmaram a participação. Mesmo assim, não faltaram momentos em que os próprios voluntários se mostraram confusos e entraram em rota de colisão entre si. Em diversas sedes, alguns ofereciam informações equivocadas e confundiam visitantes - pior, um deles morreu atropelado nas proximidades do ginásio montado para as disputas do basquete. Mesmo assim, o balanço da participação dos voluntários é positivo, com boa-vontade, disponibilidade e atenção extra em todas as sedes.

5. Segurança
O governo do presidente Felipe Calderón tem uma ação forte contra os problemas de segurança contra os narcotraficantes em todo o México. E na cidade-sede do Pan, em especial, os mexicanos tiveram muito cuidado com a questão. Por todas as ruas, policiais fortemente armados eram vistos em grupos, a bordo de carros potentes e igualmente reforçados. Homens do exército também reforçaram as vias, e seguranças particulares também puderam ser notados nas ruas. Em todas as sedes, todas as pessoas passavam por detectores de metais e revistas. Durante as duas semanas das competições, e mesmo antes delas, Guadalajara viveu um clima de intensa tranquilidade para os visitantes.

6. Torcida
A torcida mexicana fez sua parte e compareceu massivamente a todas as dependências dos Jogos Pan-Americanos - até mesmo as provas de tiro esportivo tinham gritos discretos de "México, México". Em algumas vezes, causaram algum constrangimento aos visitantes, como nos casos das delegações visitantes que eram vaiados ao apoiarem seus atletas. Mesmo assim, ninguém duvida que o apoio da torcida mexicana ajudou e muito o país-sede a evoluir no quadro de medalhas: foram 133 (42 de ouro) em 2011, contra 73 (18 ouros) em 2007. Poucos foram os eventos que contaram com pouca presença de público, como rúgbi, ginástica rítmica e as primeiras partidas de futebol.

7. Ausência de astros e estrelas
O Copag não podia fazer muita coisa se Estados Unidos, Cuba, Jamaica e Brasil pouparam alguns de seus principais esportistas para os Jogos Pan-Americanos. Ninguém viu, em Guadalajara ou nas outras cidades com sedes, nomes como Michael Phelps, Asafa Powell, Tyson Gay, Usain Bolt ou Neymar. Mesmo assim, o Pan tratou de consagrar alguns nomes que estiveram em ação na competição, como os mexicanos Cynthia Valdez (ginástica rítimica), Horacio Nava (marcha atlética) e Yahel Castillo (saltos ornamentais). Diego Hypólito, César Cielo e Thiago Pereira - segundo um jornal mexicano, "o rei da água" - também foram lembradas.

8. Arbitragens
Os árbitros foram um capítulo a parte nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara. Ainda que muitos deles viessem de Ásia, África e Europa, muitas modalidades causaram desconfiança por conta de supostas - e nunca comprovadas - denúncias de favorecimento aos mexicanos. As reclamações, em geral, davam a entender que os juízes das provas sentiam a pressão de torcedores ou a obrigação de "darem uma força" aos atletas da casa. Mesmo assim, foi uma justificativa recorrente de atletas brasileiros. "O árbitro exagerou na expulsão do nosso capitão Lucas Zen", disse Ney Franco, técnico da Seleção Brasileira masculina, após a derrota por 3 a 1 para a Costa Rica que eliminou o time na primeira fase. "Infelizmente estamos no México e eu estava brigando por posição com uma mexicana. Aí fica complicado e a arbitragem cai em cima mesmo", concordou Erica Sena, atleta dos 20 km na marcha atlética.

9. Vila Pan-Americana
Bernard Rajzman, chefe de missão do Brasil no Pan, teve problemas com as críticas que recebeu dos atletas na Vila Pan-Americana. Atletas reclamavam de filas de até 45 minutos para poderem almoçar, os apartamentos eram insuficientes para o número de atletas, o mobiliário feito de papelão gerava desconfiança. Antes disso, porém, o Copag lidou com uma lista grande de problemas: a mudança da área escolhida, as obras paralisadas por determinação judicial (culpa de uma suposta contaminação de um lençol freático) e o atraso na construção. Carlos Andrade Garín chegou a criticar a oposição política ao governador Emílio González Márquez, que estaria atrasando o andamento da construção. No fim, porém, todos tiveram tranquilidade: Bernard, Garín e Márquez.

10. Horários
A final do vôlei masculino entre Brasil e Cuba, no dia 29 de outubro, foi marcada para as 21h11 (então 2h11 no horário de Brasília). Não é culpa do Copag se as partidas aconteciam de madrugada para o público brasileiro, que muitas vezes tinha que ler notícias do resultado dos jogos apenas pela manhã. No entanto, muito atletas e treinadores reclamaram de partidas que terminavam muito tarde e que eram seguidas por horários de treino nos dias seguintes. E não foi só: partidas de tênis e finais de remo chegaram a ter seus horários mudados em cima da hora. Ricardo Mello, eliminado nas quartas de final do tênis masculino pelo dominicano Victor Estrella, afirmou que sua partida foi mudada de quadra e horário sem qualquer aviso.




Fonte: Terra
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